terça-feira, 18 de junho de 2019

Presídios, Fotografia, Aljube & Espelhos

Quando o assunto é Segunda Guerra Mundial, eu tenho um livro predileto: “O Pianista”, de Wladyslaw Szpilman, que narra todas as crueldades e atrocidades vividas, presenciadas ou sabidas pelo autor em Varsóvia durante os anos de 1939 a 1945.

Como judeu sobrevivente do Holocausto, Szpilman escreveu a obra quase imediatamente após o fim daquelas experiências, ainda sob o efeito traumático e negro que elas lhe proporcionaram, transcrevendo em palavras todas as cenas e sentimentos ainda quentes, sem esperar que o sangue arrefecesse ou que as chagas do mundo iniciassem o processo de cicatrização, publicando “O Pianista” já em 1946. Foi dessa forma que o autor conseguiu transmitir um realismo tão dilacerante e detalhado às suas descrições, que fez do seu livro um relato vivo raríssimo sobre aqueles episódios.

Desde que li “O Pianista”, em 2015, passei a dar mais atenção ao lapso temporal que deixo transcorrer entre um acontecimento relevante e o relato dele, para publicar aqui no blog. Chego a tomar notas no meio da madrugada, quando acordo com qualquer ideia ou frase na cabeça, porque percebi que, de fato, as memórias, e sobretudo os sentimentos que elas desencadeiam, vão perdendo força e detalhes em nossa mente com o passar das semanas. No meu caso, já com poucos dias, faz-se alguma turbidez nas lembranças que me impedem de descrevê-las com o mesmo grau de fidelidade.

Então, é assim, sob o risco de esquecer alguns detalhes ou de não transmitir o que alguns momentos, de fato, representaram para mim, que, diante de um intervalo de 1 mês de preguiça de publicar, mas finalmente munida de uma generosa dose de tempo (não que eu realmente o tenha hoje, mas sabe quando isso é o melhor que você pode fazer já que sabe que não irá estudar?) e boa vontade, eu pretendo descrever aqui (e sem economizar linhas), alguns episódios que se iniciaram no sábado 18 de maio, Dia Internacional dos Museus.

Bom. Para além do mestrado em Direito Penal e Ciências Criminais, eu também tenho feito, aos sábados, um curso de Pós-graduação em Direito e Medicina, na Universidade de Lisboa, que tem me rendido um aprendizado riquíssimo.

Naquele sábado, em especial, tive a oportunidade de assistir à intervenção do Sr. Prof. Duarte Nuno Vieira, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que, além de inúmeras funções e um currículo brilhante, atua junto à ONU, investigando, periciando e documentando casos de tortura e maus tratos nos presídios do mundo todo. Foi uma aula fantástica, mas, ao mesmo tempo, desconfortável. E a culpa do desconforto não foi do palestrante, das imagens, e tampouco daqueles duros assentos do anfiteatro 6. A culpa foi da verdade.

É difícil encarar a realidade da existência de cárceres em condições tão desumanas, olhar para ela. Você sabe que o elefante branco está na sala, mas ignorá-lo sempre parece mais fácil. Ainda que eu tenha a consciência de que a própria ausência de liberdade que um isolamento celular representa já é uma negativa à natureza da humanidade, é impressionante como alguns países (aqui incluso o Brasil), mesmo passados 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda reduzem seus encarcerados a uma posição animalesca, submetendo-os ao que ultrapassa os limites de uma Pena Privativa de Liberdade (PPL) e se torna uma Pena Privativa de Dignidade.

O professor mencionou as Regras de Mandela, as guidelines que determinam o mínimo aceitável para os estabelecimentos prisionais: altura das celas, largura, comprimento, iluminação, temperatura, condições gerais. Mas, temos aqui dois problemas. O primeiro deles é que essas regras podem ser flexibilizadas, para que se adaptem à realidade de cada país; o que me leva a questionar até que ponto essa flexibilização não tende a relativizar esse mínimo e torná-lo permissivo demais, passando a considerar aceitáveis condições muito aquém das pretendidas. E o segundo e mais preocupante problema é que: essas regras NÃO têm caráter vinculativo, de modo que os países não estão obrigados a obedecê-las; o que dispensa comentários.

Foi então, nesse cenário de desconforto pessoal, que, aproveitando a temática posta e o interesse que ela despertou em mim, eu finalmente escolhi o Museu que visitaria naquele Dia Internacional dos Museus (cuja data, aqui em Portugal, dá acesso gratuito aos visitantes): o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, que fica localizado no bairro de Alfama, coração de Lisboa.

O Museu do Aljube ocupa um edifício em que, até 1965, funcionava uma prisão, a Cadeia do Aljube, na qual já estiveram encarcerados, à época da Ditadura Militar, diversos presos políticos e sociais: o cenário perfeito para abrigar uma mostra de fotos dos principais estabelecimentos prisionais de Portugal.



A exposição, intitulada “The Portuguese Prison Project”, havia iniciado as visitações uma semana antes daquele sábado, no Piso 0 do Aljube, e eu estava ansiosa para conhecê-la. Pareceu a oportunidade perfeita. E era mesmo: assim que cheguei ao local, estava tomando corpo uma visita guiada com a participação do grupo de Teatro de Carnide. Tive a oportunidade de conhecer todo o museu e sua história, intercalando a narrativa da guia com dramatizações que fizeram da visita uma experiência tão profunda e intensa, que eu precisaria de outro post para descrever, pois gastei, ao todo, entre 3 e 4 horas imersa naquele edifício, que, metricamente falando, nem é tão grande assim.

Voltando minha atenção para a exposição, esta traz os diferentes (e poderia até dizer antagônicos) pontos de vista de dois grandes fotógrafos: um suíço, Peter Schulthess, que aborda uma perspectiva mais técnica, mostrando os ambientes prisionais dos 7 estabelecimentos visitados de forma crua e completa, com clareza e riqueza de detalhes; e um português, Luís Barbosa, que opta por um jogo de sombras e luzes, utilizando-se do preto e branco em todo o seu acervo para levar ao público uma pequena (e eficiente) amostra do sentimento de se estar preso.

Olhando para as fotografias de Peter Schulthess, irracionalmente, eu reagi, a priori, com um sentimento de decepção que me deixou inquieta e pensativa. As fotos estavam incrivelmente bem feitas, mas faltava dor. Parecia que eu havia ido ali buscando uma extensão da aula à qual assisti pela manhã, com o intuito exclusivo de ver as piores condições que um estabelecimento prisional é capaz de oferecer a um indivíduo: as condições que o meu país costuma oferecer. As condições que as prisões da Europa não iriam me oferecer naquele momento.

Algumas das imagens dos quartos dos encarcerados me fizeram lembrar de fotos de Hostels mais acessíveis, que eu costumo ver no início das listas do Booking: simples, mas habitáveis, quando não se faz questão de nenhuma sofisticação ou privacidade. Onde estavam as celas minúsculas e imundas? Onde estava a falta de boa iluminação, a falta de humanidade, o completo improviso, talvez os ratos? Mas, mais importante: de onde vinha minha necessidade de ver isto nas fotos?

Fitando, então, as fotografias de Luís Barbosa, dispostas numa projeção que pisca rápido o suficiente para causar no espectador toda a sorte de inquietação e desconforto possível, num contraste de sombras em preto e branco que se intercalam entre barras de ferro, silhuetas, sistemas de segurança, rabiscos nas paredes, imagens bíblicas, pornográficas, etc.; eu achei a minha primeira resposta. A dor estava ali, sim, porque ela sempre está ali, por toda a parte; ela só precisava ser retratada.

A dor é inerente à falta de liberdade, à falta de convívio familiar, à falta de conforto, à falta de trabalho, de lazer, de amigos, de amores, ao sentimento de culpa. A dor é inerente aos estabelecimentos prisionais, porque eles foram feitos para isso, eles foram feitos para comunicar ao indivíduo que ele está sendo punido, independentemente das melhores ou piores condições que as estruturas físicas ofereçam aos seus encarcerados. Um dos fotógrafos a quis fotografar, enquanto o outro despiu aqueles edifícios de humanidade (porque a dor é viva e humana) e retratou-os em sua nudez, mostrando-os como eles são, e não como parecem ser aos olhos de cada preso.

A grande diferença é que, de lá do país de onde eu venho (que, diante dessas reflexões, mostrou uma realidade que passou a parecer de um plano até fora do terrestre), o significado valorativo de dor, violência institucional e desumanidade parece ser tão diverso deste, por estar atrelado a um sofrimento tão mais intenso, que as estruturas das prisões europeias seriam incapazes de proporcionar aos seus apenados. Eu buscava irracionalmente enxergar essa intensidade nas fotos, porque ela é o que me é comum; porque, nas prisões, obrigatoriamente (segundo crenças que, eu não percebo, mas que ainda estão enraizadas na minha cabeça), ela é quem deve figurar nesse contexto. Há um Abismo Axiológico (ADEODATO, João Maurício) bem aqui, mas ele parece transponível. Eu entendi a raiz do meu sentimento de decepção.

Dando continuidade, logo após a visita, eu descobri que aquele projeto fotográfico iria culminar, na semana seguinte, em uma conferência internacional denominada “Prisons in Portugal and Europe: Regimes of Detention and Monitoring of Regimes”; mais uma oportunidade de continuar explorando e expandindo todo aquele cenário reflexivo que minha mente vinha montando.




Foi daí que, no primeiro dia de intervenções, apesar de ter chegado apenas após o almoço, porque estive em aula pela manhã, comecei a ter contato com informações sobre o sistema carcerário português e suíço, que me fizeram, espontaneamente, olhar ainda mais fundo, e com muito mais perplexidade, para a revoltante realidade brasileira, que se pauta, histórica e atualmente, ainda, na premissa da imprescindibilidade de imposição de um “Hard Treatment” (DUFF, Antony) para que a comunicação da Punição se estabeleça.

Sei que podem ser levantados inúmeros argumentos sobre o quão enorme e o quão pobre o Brasil é para ser comparado a Portugal e, sobretudo, à Suíça. Mas, em termos de densidade carcerária, nada explica a discrepância, nada explica razoavelmente o encarceramento em massa e as miseráveis condições às quais nossos presos são submetidos. E eu também não pretendo me prestar ao Relativismo ou a nivelar o Brasil “por baixo”, para ser benevolente e me satisfazer com uma condição de “menos pior”. Talvez seja justamente esse o problema de nós brasileiros e do nosso sistema: relativizar nossa condição precária e compará-la sempre ao que é pior do que ela, para sentir o conforto de uma ilusória superioridade; ao invés de nos espelharmos nos países que, não obstante suas próprias falhas (que, por óbvio, também existem, e era justamente isso que estava sendo exposto e debatido pelos palestrantes ali), parecem já ter uma noção menos neandertal de Garantias e Direitos Humanos. (E não, esses países inspiradores não incluem os Estados Unidos da América, com a maior população carcerária do Globo).

Perdoem a inevitabilidade das comparações e críticas que faço ao Brasil. Mas, ter conversado com um dos conferencistas, no segundo dia de intervenções, João Nataf, secretário do Subcommittee on Prevention of Torture (SPT), e ouvir que as últimas recomendações feitas pelas Nações Unidas, através do subcomitê, foram recebidas pelo país (que, ironicamente, é signatário do OPCAT - Protocolo Facultativo à Convenção contra a Tortura), porém não atendidas ou implementadas por motivos de “esta não é uma prioridade do Governo atual”, revolta-me. Alguém me diga, por favor, quais são as prioridades desse Governo, afinal? A que (ou a quem) ele se presta? Eu sei que a situação já estava posta à mesa muito antes de 1º de janeiro de 2019, mas quem senta na ponta sabe que deve pagar a conta.

Pois bem, voltando um pouco (e prestes a encerrar esse texto megalômano que ninguém lerá na íntegra), um dos melhores momentos da Conferência foi quando, ao final do primeiro dia, tivemos a oportunidade de descer ao piso da exposição de fotos, acompanhados pelo fotógrafo Luís Barbosa, para explorar a sua boa vontade em responder a nossos questionamentos e curiosidades. E foi quando eu prestei um pouco mais de atenção a esta foto:


Essa fotografia traz a imagem de um espelho, em que se pode perceber uma grande distorção no reflexo do quarto que ele representa. Assim que vi esse clique, eu imaginei que se tratava de um espelho comum, talvez tão velho que o vidro teria formado gota (já que aprendi em Química, no Ensino Médio, que isso pode acontecer), gerando essa ondulação que o fotógrafo instintiva e propositadamente capturou.

Mas, a uma segunda vista, de frente para a mesma imagem que eu já houvera fitado no fim de semana anterior, visitou-me uma dúvida: como é permitido, aos presos, o acesso ou manuseio de espelhos? Não se pode negar que espelhos, quando quebrados, são uma arma em potencial. Isso não colocaria em risco a segurança e a integridade física dos apenados? E, sendo proibidos os espelhos, como os presos teriam acesso à sua própria imagem? E como, não tendo acesso à própria imagem, não estar-se-iam sujeitando a uma quase total “despersonalização”?

Não me contive e aproveitei a oportunidade dada pela ocasião, indo questionar Luís Barbosa, que, muito atenciosamente, explicou-me que aquele espelho, na verdade, era de um material plástico, semelhante aos brinquedos de crianças; justamente como forma de evitar o risco que o vidro poderia representar num ambiente celular. Olhado de frente, o espelho refletia a sua imagem, mas, mudando-se o ângulo, eram percebidas as perturbações no acrílico, como a ondulação que ele conseguira retratar. 

Dizem que a ignorância é uma benção. Eu nunca antes havia parado para pensar na falta de dignidade e de humanidade que ser privada do meu próprio reflexo pode representar. O quão cruel e enlouquecedor seria não poder me reconhecer. E, de uma forma ou de outra, as pessoas encarceradas já se submetem automaticamente a isso, a essa perda da própria identidade. Qual é a dureza que ainda precisa ser acrescentada a esta?

É, crianças. Posso mudar de opinião algum dia, ou meu país pode me fazer mudá-la também. Mas acho que, se eu fosse hoje presidiária no Brasil, defenderia a premissa do “bandido bom é bandido morto”, porque eu, sem qualquer dúvida, preferiria mesmo a morte. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Índio, pra que te quero?

Desde 1943, no dia 19 de abril, comemora-se o Dia do Índio no Brasil, em razão do decreto-lei nº 5.540 assinado pelo então presidente Getúlio Vargas. Tenho muitas lembranças de vários 19 de abril na minha infância, e parece-me que essa data nunca passou por despercebida na minha escola. Tínhamos algumas festividades, os adultos nos pintavam, confeccionávamos cocás de papel, colares, ou simplesmente coloríamos figuras representativas. 

Lembro, já um pouco mais crescida, com meus 10 ou 12 anos talvez, no auditório do Colégio Damas Santa Cristina, de um colar com uma grande semente preta que comprei (e que, se calhar, ainda o tenho guardado em Nazaré) das mãos de uma índia na visita de uma tribo em ocasião da Campanha da Fraternidade daquele ano. Eu queria uma lembrança do evento e queria ajudar as tribos de alguma forma. Posso estar confundindo as datas das recordações também, mas tenho a impressão de que, nesse mesmo dia, fiz a leitura de algum texto no palco, porque guardo uma sensação de estar ansiosa naqueles momentos. 

Hoje, mais um 19 de abril, dessa vez passado no país dos colonizadores e sentindo-me crescida demais para as pinturas e cocás, vejo-me coincidentemente estudando para um seminário do mestrado que apresentarei na próxima quarta-feira, debruçada sobre livros e artigos acerca do sistema sancionatório aborígene, jurisdição étnica, violência contra mulheres indígenas, Multiculturalismo, Pluralismo Jurídico, infanticídio indígena, gênero e colonialidade; e percebo, numa reflexão quase automática e obrigatória, que, da minha infância pra cá, pouca coisa mudou em termos de consciência de pluralidade étnica e cultural no meu país. 

Os ameríndios, de modo geral, ainda povoam o imaginário do "homem branco" como um retrato de barbárie, pouca (ou nenhuma) roupa, tintas, contas, ausência de civilidade, e inaptidão para autocomposição de conflitos. E essa é uma visão jurássica e perversamente limitada a respeito de uma cultura coletivista na verdade bastante complexa e desenvolvida; o que prejudica a proteção dos reais interesses e da autonomia desses povos, colocando-os numa equivocada posição de constante necessidade da intervenção do Estado nacional ou das ações missionárias (e suas intenções secundárias).

Em meio ao já consagrado reconhecimento constitucional e internacional dos direitos desses povos, ouvir um "mas pra que esses índios querem tanta terra?", assistir à transferência da responsabilidade de demarcação das terras indígenas da FUNAI para o Ministério da Agricultura pelo atual governo, ou ver a imensa dificuldade de se adaptar uma lei como a 11.340/06 (Lei Maria da Penha) às peculiaridades do contexto aborígene, denuncia a permanência de um centrismo cultural na figura do homem médio Ocidental e de suas políticas e interesses que parece muito distante de acabar. Sem querer generalizar, mas já o fazendo, parece-me que, ainda hoje, nada é pensado para o pleno gozo e aproveitamento de todos os brasileiros, nem mesmo as nossas leis. 

Tenho ainda muito o que estudar e pesquisar sobre o tema antes de formar as minhas opiniões definitivas (as quais evito escrever aqui porque tenho medo de configurar auto-plágio quando for depositar os meus relatórios com essas opiniões repetidas hahaha), mas hoje foi inevitável pensar em como, para muito além de tintas e colares, devemos educar as futuras gerações no sentido de desenvolver, desde o princípio, uma consciência étnica permanente que evite adultos tendenciosos à repetição de certos padrões de comportamento que rechaçam a importância histórico-cultural dessas populações e a imprescindibilidade de respeitá-las. 

Feliz Dia do Índio e boa Páscoa!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Sobre o Instinto Maior do Rufar dos Tambores


Ultimamente, tenho experimentado toda a sorte de situações acadêmicas que esse mestrado na Universidade de Lisboa é capaz de me proporcionar, toda a diversidade de mentes (e também de corações) que a saída da minha zona de conforto (e da minha Zona da Mata Norte) poderia me oferecer. 

Assim, por esses dias, alguns episódios me fizeram lembrar de um sermão de Luther King que inspirou o meu discurso no Juramento da Ordem dos Advogados do Brasil, há quase 1 ano atrás. Pensei em escrever a respeito aqui e suscitar, em mim, um debate interno sobre Vaidade e, para tanto, fui reler o texto que redigi naquela ocasião; mas que, à época, me recusei a publicar, porque nunca o achei bom ou bem escrito o suficiente.

Acabei decidindo abrir mão do meu perfeccionismo só para compartilhar a reflexão que tenho percebido ser ainda bastante cara a todos nós, operadores do Direito. Segue, então, o texto que li no dia 19 de junho de 2018 no auditório da OAB de Pernambuco.

“Senhoras e senhores, muito boa tarde. Minhas saudações. Prometo que tentarei ser breve, ou tão breve quanto a difícil missão de estar aqui me permitir.

Antes de mais nada, queria enfatizar que é um privilégio participar desta cerimônia na condição de oradora da turma, a convite da Presidência da casa, representando meus futuros colegas de profissão.

E é em nome deles, dos mais novos advogados e advogadas do Estado de Pernambuco, que eu inicio a minha fala agradecendo. Agradecendo aos nossos familiares, pais, mães, amigos, professores, a todos aqueles que, direta ou indiretamente, nos encorajaram e contribuíram para a conclusão dessa etapa tão exaustiva e, ao mesmo tempo, edificante.

Cada um aqui travou, de maneira singular, a sua batalha pessoal diária diante dos incontáveis desafios que o curso de Direito nos impôs, mas, acredito que temos 1 certeza em comum: jamais teríamos superado esses obstáculos e chegado até aqui sozinhos. Portanto, a todos esses nossos incentivadores e, em especial, àqueles que estão neste auditório hoje: Gratidão.

Dito isso e voltando-me, então, aos homenageados da tarde, gostaria de parabenizá-los por terem garantido seus assentos nesta solenidade. Incontáveis foram os degraus acadêmicos, e até mesmo sociais, que precisamos subir (ou derrubar) para estarmos sentados aqui. Incalculáveis as noites em que driblamos o sono e o cansaço, desde o vestibular, até o famigerado Exame de Ordem. Inúmeros os colegas que foram ficando pelo caminho, intermináveis as páginas de conteúdos que fomos levados a ler. E tudo parece estar, enfim, chegando a seu final feliz, nessa cerimônia, a partir de uma promessa que igualmente representa um começo feliz: o compromisso legal da Ordem dos Advogados do Brasil .

Hoje, iremos finalmente transpor a linha tênue que ainda nos separa da Advocacia, a profissão que escolhemos prestar à sociedade. E eu repito, prestar à sociedade, porque, antes de mais nada, a Justiça Social será a principal atribuição profissional que estaremos encarregados de desempenhar agora, defendendo a Constituição pátria, a ordem jurídica do Estado Democrático de Direito e a coerente aplicação das leis, acima de quaisquer interesses privados.

E é diante desse pensamento que eu gostaria de levá-los a apreciar e refletir um pouco sobre uma caracterização trazida por Martin Luther King, um incontornável nome da luta pelos Direitos Humanos.

Em 1968, ano de seu assassinato, King realizou o sermão 'The Drum Major Instinct', traduzido para o português como 'O Instinto Maior do Rufar dos Tambores', segundo o qual, todos os seres humanos teriam um instinto de alcançar distinção diante da coletividade, um desejo de chamar atenção para si, de obter reconhecimento. Todos nós teríamos esse impulso dominante de querer se sentir notado, de querer ser o primeiro, superar os outros e liderar a multidão. É aquela coisa: não basta ser importante, a gente quer se destacar, a gente quer ser elogiado!

Para King, até o nosso primeiro choro como bebê já era um apelo por atenção, um impulso de rufar o tambor mais alto que os demais, assim como quando compramos um carro acima de nossa zona de conforto financeira na tentativa de obter não apenas qualidade no deslocamento, mas destaque nas ruas. Ou quando aceitamos, com bastante vaidade, um convite para discursar para uma turma de advogados recém-formados, igualmente capacitados para estarem aqui no meu lugar.

Brincadeiras à parte, esse parece um instinto humano um tanto perigoso, uma 'faca de dois gumes'. Ao mesmo tempo que esse impulso dominante e competitivo nos coloca em constante evolução pessoal, social e sobretudo profissional, levando-nos a perseguir sempre nosso aperfeiçoamento; ele pode se tornar pernicioso, destrutivo, à medida que nos levaria a subverter ou rechaçar o escopo maior da nossa profissão: a Justiça.

Certa vez, na minha graduação, durante uma aula de Direito Civil, a professora da Casa questionou à minha turma o motivo de estarmos estudando no curso de Direito. A resposta veio rápida de um dos meus colegas: 'estabilidade financeira', sem hipocrisia.

Ela continuou: - Vocês sabem que, no Brasil, temos quase 1 milhão de estudantes de Direito? Vocês acham que isso é muito ou pouco?
- Muito, bastante, né?! meu colega respondeu, recebendo como resposta um novo questionamento:
- E você considera o Brasil um país justo?

E eu pergunto a vocês também: vocês consideram o Brasil um país justo? Acho que a resposta aqui também seria uníssona e unânime. Não.

E a professora concluiu: - Então, meu filho, enquanto o Brasil não for um país justo, nós teremos que continuar formando juristas. Quando nosso país for justo, talvez, aí sim, nós possamos formar Poetas.

Portanto, a Justiça, e não o Reconhecimento Social, deve ser o nosso propósito como causídicos. A Ética, e não o Enriquecimento Financeiro, deve estar no topo das nossas prioridades. A Consciência Coletiva, e não a Vaidade, deve nos levar a advogar em nome de uma causa.

Os elogios, a construção patrimonial, a admiração, serão consequências inafastáveis e inexoráveis da nossa retidão e do nosso empenho, mas que nunca devem ser a mola propulsora da nossa profissão. Caso contrário, se não conseguirmos domar esse instinto vaidoso, pode acabar sendo inevitável deturpar o Juramento solene que estamos prestes a realizar hoje.

Assim, eu gostaria de encerrar a minha fala, trazendo um trecho do sermão de Luther King que mencionei, a respeito do Instinto Maior do Rufar dos Tambores: 'É um bom instinto, se você não distorcê-lo e pervertê-lo. Não desista. Continue sentindo a necessidade de ser importante. Continue sentindo a necessidade de ser o primeiro. Mas eu quero que você seja o primeiro no amor. Quero que você seja o primeiro em Excelência Moral. Quero que você seja o primeiro em generosidade.'

Obrigada a todos e muito boa sorte em nossa caminhada.” 
Analu Peixoto Barbosa, junho de 2018.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Fotógrafos Por Empatia

Descobri que hoje é o Dia do Fotógrafo e, apesar de o meu tempo livre estar muito reduzido essa semana, nunca é tarde para procrastinação, então resolvi escrever algo que sempre tive vontade. 

Eu tenho uma teoria particular sobre pessoas que fotografam bem. E eu não falo de pessoas que aprenderam a fotografar numa sala de aula, com professores, paletas de cores e uma câmera profissional. Eu falo de pessoas que nasceram com uma espécie de “dom natural” para reconhecer uma boa luz e um bom ângulo, independentemente de megapixels. São essas as pessoas que me interessam. Para mim, elas não têm talento algum, elas têm EMPATIA. 

Sei que a definição de Empatia é de conhecimento comum, mas quero, ainda assim, analisar o significado aqui para desenvolver melhor a minha ideia. Numa pesquisa rápida no Google, achei esse conceito: “Empatia é a capacidade de entender ou de sentir o que outra pessoa está experimentando dentro de seu quadro de referência, ou seja, a capacidade de se colocar na posição de outro”. Para a Psicologia, a Empatia pode ser dividida em: Cognitiva e Afetiva. A Empatia cognitiva diz respeito à “capacidade de compreender a perspectiva psicológica das outras pessoas”; enquanto a Empatia afetiva se relaciona com a “habilidade de experimentar reações emocionais por meio da observação da experiência alheia”.

E o que é fotografar bem, afinal? É ir até aquele ponto de vista ideal, que você reconheceu como ideal quando ainda estava a uns 50 metros de distância dele, porque percebeu que, dali, o ângulo e a luz favoreceriam o objeto ou a paisagem que se queria fotografar. Você não precisou ir até lá antes para saber que era o melhor ponto, você já sabia antes mesmo de se deslocar. Isso é a mesma coisa que ter Empatia. Você não precisa sentir a dor do outro para entendê-la, você não precisa ser o outro para ser capaz de enxergar os fatos da sua perspectiva, você não precisa de um transplante de corpos, você não precisa ir até lá. Você só precisa dessa capacidade de se transportar mentalmente do seu ponto de vista para o do outro, de se deslocar mentalmente para outro referencial. 

Não digo que fotografar bem é uma condição sine qua non para determinar que um ser humano tem Empatia; e nem o contrário, já que acredito que é possível aprender a fotografar com as aulas e os aparelhos corretos. Mas, repara bem nas pessoas que você conhece que sabem tirar boas fotos: elas parecem ter exatamente essa delicadeza humana dentro de si! 

Por isso, nesse Dia do Fotógrafo, além de deixar um beijo pra essas pessoas que são “Fotógrafas por Empatia”, eu queria admitir publicamente que não tem talvez elogio que me derreta mais do que os que são feitos a fotos tiradas por mim, porque, aos meus ouvidos, esse é um elogio ao meu coração! ❤️

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Lendo pessoas

Há alguns anos, ganhei da minha irmã o livro “Os Últimos Dias dos Romanov”, da historiadora Helen Rappaport, que narra detalhadamente os momentos derradeiros da família imperial no cenário da Revolução Russa, até a sua completa execução. 

A grande maioria dos livros históricos costuma trazer certo entrave em sua leitura, que eu me dou a liberdade de variar a definição entre os adjetivos “pesada” e “difícil”. Um livro cuja leitura é “pesada”, para mim, é aquele que traz descrições minuciosas, inesgotáveis e fatigantes de momentos e cenas desconfortáveis; fazendo com que a leitura seja pouco agradável e me leve a gastar menos horas do meu dia imersa nela, levando um tempo maior até conseguir finalizá-la. 

Um livro que eu chamo de “difícil” é aquele no qual eu preciso empregar um esforço extra para apreender todas as informações, às vezes pela escrita pouco fluida, às vezes pelo emprego exagerado de termos técnicos ou distantes do meu cotidiano literário, às vezes tão somente por não conseguir captar, de pronto, o raciocínio que o autor utilizou para formular seus parágrafos. No caso desses livros, constantemente, preciso retomar trechos já lidos ou mesmo pesquisar o significado ou a origem de algumas palavras; o que também me leva a despender um tempo consideravelmente maior para esgotá-los. 

Apesar do peso ou da dificuldade, todos os livros sempre encontram leitores interessados o suficiente para devorar as suas páginas, não importa o tempo ou o esforço que isso custe; demonstrando que não existe peso ou dificuldade capaz de fazer com que algum livro jamais seja apreciado por alguém.

Assim como são os livros, as pessoas também são leituras, e a complexidade inerente ao ser humano tende a fazer com que nossas páginas sejam igualmente complexas. Algumas pessoas, entretanto, podem garantir leituras um pouco mais “pesadas” ou “difíceis” que as outras, pelo tempo que a compreensão delas exige ao leitor. 

Uma pessoa cuja leitura é “pesada” tem uma carga histórica e emocional bastante desgastada, mas que a faz única e extraordinária. Uma pessoa cuja leitura é “difícil” exige um meticuloso jogo de cintura em sua interpretação; o que a faz misteriosa.

Um bom e verdadeiramente interessado leitor nunca verá aquele livro (ou aquela pessoa) difícil como uma perda de tempo, um dispêndio, uma missão inútil. Quanto mais ele lê, mais ele se interessa em devorar as próximas páginas, em conhecer o restante da história, vislumbrando até mesmo ser parte dela; por reconhecer todos os benefícios que aquela leitura pode lhe proporcionar apesar do trabalho que lhe dará. Para eles, é como suportar os espinhos para ter a rosa.

Algumas vezes na vida, cruzamos com leitores pouco interessados, que apreciam nossa capa, mas não são capazes de se deleitar com a leitura tão profunda que oferecemos. Assim, no andar da carruagem, o encontro com esses leitores pode ser constante o bastante para nos fazer acreditar que, além de pesadas ou difíceis, somos pessoas impossíveis. 

Eu disse, há alguns parágrafos de distância dessa linha, que mesmo os livros mais difíceis e pesados encontram leitores que sabem apreciá-los. Nenhum livro é impossível de se ler se o leitor certo tiver interesse suficiente em suas páginas; da mesma forma que, para nenhuma pessoa, existe a impossibilidade de encontrar quem a queira ler também.

Obviamente devemos zelar para fazer das nossas páginas as melhores e mais agradáveis que podemos oferecer, ou mesmo para ajudar aquele leitor interessado, porém não tão bom, a compreender as nossas nuances. Igualmente, devemos nos dispor a ler os outros em sua completude, empregando o esforço que gostaríamos que fosse usado em nós mesmos. Mas aquilo ao qual nunca devemos nos render é ao pensamento de que somos pessoas impossíveis de serem apreciadas, impossíveis de terem suas qualidades reconhecidas ao ponto de precisarmos arrancar as nossas páginas para que caibamos na estante dos outros; só porque um mero leitor negligente e impaciente cruzou a nossa vida. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Grandezas Relativas

Meu pai tem uma mania irritante de nos marcar em todas as publicações que encontra na internet. Um dia, ele me mencionou em um texto no Facebook que dizia: “apaixone-se por um grande homem, e nunca mais voltarás a chorar”. Eu nunca segui seu conselho. Não porque desse de ombros e achasse desimportante, mas porque meu coração sempre teve um déficit cognitivo para reconhecer essa espécime rara de Homo sapiens que seria o “grande homem” pelo qual valeria a pena me deixar apaixonar.

A verdade é que, reza a lenda, eu tenho aquele “dedo podre” para escolher pessoas que caminharão ao meu lado, sabem?! Normalmente, o cupido aponta no sentido de seres humanos pouco interessados, pouco amorosos, rasos, falsos, fúteis... e eu os sigo, sou atropelada pela sua insensibilidade, levanto e, com muito esforço e tempo, mudo de estrada, em direção ao próximo coração gelado da vez. 

Karma? Destino? Chamem como quiserem. Mas a verdade é que, depois desses meus 25 anos, aprendi que meu “grande homem” não será aquele que tiver mais qualidades, mas aquele que mais souber valorizar e apreciar as MINHAS qualidades, que mais souber reconhecer que EU também sou uma “GRANDE MULHER”. 

Então, apropriando-me do conselho amoroso do meu pai, queria deixar a minha adaptação pessoal para quem também precisa dela: “apaixone-se POR SI MESMA e nunca mais voltarás a chorar”. 

Textinho curto só pra desejar um bom dia e ressuscitar meu bloguinho esquecido! Beijos no coração! 

sábado, 30 de dezembro de 2017

Feliz Arco-íris Novo!

Ontem, eu estava tomando banho e notei que os raios de sol que entravam pela janela do banheiro tocavam a água que caía do chuveiro de tal forma que me permitiam enxergar um arco-íris. Eu já tinha lido um pouco sobre esse fenômeno, na época do colégio, e sabia que ele era causado pela refração da luz solar nas gotas de água.

Longe da Física, parei pra pensar um pouco (tá explicado porque meus banhos podem ser tão demorados) no que a figura do arco-íris costuma representar: o fim da tempestade, a bonança, o momento em que o sol volta a brilhar... Mas arco-íris também é a gargalhada que a gente solta, contando aquela história que, há meses ou anos atrás, nos magoou e fez chorar. Arco-íris também é aquele abraço que a gente dá quando finalmente fazemos as pazes depois de uma briga. Arco-íris é aquela nota boa que a gente tira depois de passar dias e perder noites estudando. É aquela pessoa incrível que a gente encontra depois de uma coleção de decepções. Arco-íris é "um ventilador ligado no 3". 

O problema é que, da mesma forma que a gente tende a pensar que o arco-íris é um fenômeno óptico distante da nossa pequenez humana, tão grande quanto a natureza e impossível de se reproduzir longe da imensidão do céu; acreditamos que o arco-íris da nossa vida, onde tá escondido o pote de ouro da felicidade, independe de nós e só vai surgir naquele "final feliz", que até desacreditamos se virá realmente, desconsiderando todos os arco-íris que constantemente nos povoam. 

Desconhecemos o poder que nós mesmos temos de pintar e enxergar vários arco-íris na nossa vida e na do outro! Cada atitude da gente é uma gota em potencial pra que o sol brilhe em nós e a luz seja refratada. Assim como eu posso fazer, eu mesma, um arco-íris, abrindo meu chuveiro; eu posso pintá-lo todos os dias com minhas atitudes, decisões e pensamentos. Basta que minha casa esteja sempre com as janelas bem abertas pra o Sol entrar!


Desejo a todos vocês um ano de muitos arco-íris!!! Que vocês reconheçam todos os arco-íris que não enxergaram em 2017, e que possam, além de perceber cada novo que surgir em 2018, pintá-los com suas próprias mãos! Beijo no coração!!!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

"O banho nosso de cada dia, dá-nos hoje"

Acho que a maioria que vai ler isso nunca parou pra pensar que um banho poderia representar uma expressão de dignidade, né?! Um ato tão simples, que a gente repete quantas vezes quiser (ou precisar), a qualquer hora do dia, naquela aguinha quente do chuveiro elétrico, ouvindo música alta, aparando a água com as mãos, passando uns minutos inerte embaixo dela, só pra sentir o corpo inteiro relaxando e poder tomar as próximas (difíceis) decisões: qual será o shampoo da vez? Uso meu sabonete esfoliante? Será que dá tempo de testar minha nova hidratação? 

Mas acredito que todo mundo aqui já passou pela péssima experiência de tomar banho com um balde. No interior ou na praia, às vezes, faltava "água na rua" e a gente se via obrigado a isso. Oportunidade pra tomar banho com água mineral e deixar meu cabelo mais bonito? Se tava muito fria, Santa Luzi vinha com uma chaleira e despejava água quente pra facilitar a vida da gente. Ótimo! Mas como era chato ficar jogando água na cabeça, viu?! Meu pai resolvia logo o incômodo, construindo uma cisterna e instalando uma bomba que "tocava a água para a caixa". Lembro como se fosse hoje, no meio de vários banhos, eu gritando "Alguém liga a bomba, por favor, que acabou a água!". E a mágica do conforto acontecia. 

Na minha infância também, quando eu ia para o acampamento de férias, experienciava desconfortáveis racionamentos de banho. Eram 10 meninas em cada quarto, com apenas 1 chuveiro. Limitavam nosso tempo na água, mas aquilo nem era água, era gelo. Havia quem não encarasse de manhãzinha, mas eu ia na garra, porque só acordo de verdade assim. Levantava mais cedo que todas, porque o tempo era curto e eu tinha minhas táticas, né?! Primeiro, as mãos e os pés, depois os membros, o tronco e, finalmente, enfiava a cabeça, pulando freneticamente. Aguentava tudo me lembrando de que, em alguns dias, aquele sofrimento acabaria e eu estaria na minha casinha com aventuras de uma semana super divertida e bem "selva" pra contar. 

Hoje, entretanto, vi uma publicação do Diário de Pernambuco e foi inevitável lembrar e refletir sobre tudo isso. O link da notícia é esse: 


Trata-se de uma ONG que capitaneia um projeto de criação de ônibus para oferecer banhos gratuitos a moradores de rua aqui na capital. 

Ano passado, quando tava voltando pra casa, presenciei um menino "invadindo" a torneirinha de um estabelecimento comercial na esquina com a Av. Ayrton Senna. Ele pegava a água com as mãos em concha e ia levando às partes do corpo, no meio da rua mesmo, com os carros passando, com gente feito eu olhando. Colocava a água na boca enquanto fazia isso: também era uma oportunidade de matar a sede, afinal. Eu tinha acabado de retornar da academia e, em poucos minutos, estaria em mais um ritual debaixo do chuveiro e esqueceria aquela cena. 

O vídeo, na notícia do Diário, mostra Fábio que, assim como o menino que eu vi, precisa submeter sua higiene (quando é possível realizá-la) a condições sub-humanas. Lembrei do desconforto dos banhos com balde na infância, das experiências geladas no acampamento... Era tudo transitório pra mim: eu sabia que, cedo ou tarde, meu banho quentinho se restabeleceria. Mas, pra essas pessoas, a situação é permanente. Eles convivem, todos os dias, com um racionamento compulsório de banho, são obrigados a se utilizar de locais completamente inapropriados pra isso, numa condição degradante que tá "banhos-luz" de corresponder ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, que a nossa CRFB/88 faz questão de ostentar como fundamento. 

O Prosol é, sim, um projeto muito humano, mas que, infelizmente, escancara a falta de "humanidade" em que esses moradores vivem. E não, eu não quero dizer que essas pessoas são menos dignas ou menos humanas só por não tomarem banho como eu tomo. O que eu quero dizer é que, justamente por serem humanas como eu, são tão dignas quanto qualquer outra pessoa ao acesso a um banho, tendo violados os direitos inerentes à sua condição de ser humano quando precisam se submeter a essa precariedade. E isso porque eu só tou falando de banho, né?! Se a gente fosse elencar tudo a que Fábio não tem acesso... Haja caracteres. 

Enfim, fazia tempo que eu não publicava nada novo aqui e quis compartilhar esse sentimento de revolta e de impotência de hoje. Sei que não dá pra oferecer meu banheiro a cada pessoa que tá na rua e precisa de um banho, de muitos banhos. Sei que centenas de ônibus adaptados com chuveiro não vão mudar a condição de vida dessas pessoas. Sei que existem direitos ainda mais urgentes pra gente cuidar... Mas acho que toda grande mudança parte de uma pequena reflexão e eu quis trazer a minha pra, ao menos, incentivar novas reflexões que resultem em mais projetos como esse. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"Sujeito" atualizado

Só para atualizar com a informação de que, finalmente, depois de 4 anos, editei a aba "Sujeito" aqui do blog, que traz a descrição do eu-lírico dessas publicações: EU. Foi difícil, demorado, o resultado não ficou satisfatório, mas, pelo menos, eu o fiz hahaha. Até a próxima ;) 

Pé de Amor

Todos os dias, eu acordo sem a certeza do que as próximas 24h me reservam. Todos os dias, essas 24h me surpreendem. E, no último minuto do meu dia, quando eu fecho os olhos pra fazer uma prece, eu peço a Deus o que é mais essencial à minha sobrevivência: que eu saiba amar.

Que eu saiba amar, Papai do Céu! Todos os dias em que eu viver! Que eu saiba reconhecer o amor em cada pessoa que cruzar o meu caminho, que eu saiba ensinar o amor a quem não sabe amar, que eu saiba me doar por esse amor, que eu saiba ser paciente nele e, assim, colher seus frutos. 

Quando a flor de uma árvore é polinizada e seus óvulos são fecundados, ocorre a liberação de alguns hormônios. Esses hormônios provocam o desenvolvimento do ovário daquela florzinha, a fim de suprir as necessidades dos embriões que estão se formando no seu interior e que precisam de um abrigo eficiente e nutritivo. Esse ovário desenvolvido, geralmente de sabor agradável, é o que a gente chama de Fruto. 

Toda a fruta passa por estágios de amadurecimento até adquirir sua composição ideal para ser recipiente daqueles embriões. O agente responsável por essas modificações é um hormônio gasoso chamado Etileno. Assim, à medida que o Etileno vai sendo produzido, a fruta vai se tornando macia e docinha, saborosa ao nosso paladar.

Entretanto, não é só o seu sabor que muda! Toda a composição da fruta vai sendo modificada, formando-se mais e mais açúcar, sintetizando-se substâncias novas, até que se atinja o auge nutricional daquele fruto, a sua maturidade. Chega-se, então, no momento certo de colher e saborear!

O amor, assim como as árvores, começa em uma sementinha, que a gente planta e vai cuidando, até que brote, cresça e floresça. Aprender a amar é quase como um curso de jardinagem, de botânica, sei lá... E o segredo desse curso, o seu TCC, está em saber fazer aquele amor dar frutos e colhê-los no tempo certo, quando se pode tirar o maior proveito deles. 

Um fruto verde, assim como um amor imaturo, é rígido e azedo. Seu sabor desagradável está acompanhado de ácidos que, quando ingeridos, podem causar desconfortos abdominais, sendo difícil a digestão desse tipo de alimento. Da mesma forma, um fruto que passou do ponto, que, já estando maduro, foi esquecido, começa a ser decomposto; iniciando-se uma fermentação que, se ingerida naquele estágio, também resultará em sabor desagradável e problemas gastrointestinais.

Mas, veja bem... Se a gente puxar um fruto do pé antes do tempo, vai amargar esses dissabores pela impaciência. Só que, quando a gente fala de amor, o acre é muito mais intenso. 

Tem amor que a gente planta no jardim do outro e não brota. Deixa a gente sem esperanças. Tem amor que a gente rega direitinho e ele floresce, mas não dá frutos, só embeleza. Deixa a gente com fome. E tem amor que frutifica, que alimenta, que sacia. Deixa a gente com vontade de dividir todos aqueles muitos frutos com quem estiver ao redor. 

A fome de amor é, talvez, a mais miserável violência que um homem pode sofrer. A gente pode até não saber amar, mas não amar beira uma forte ofensa à dignidade da pessoa humana! Acho que amar não é nem um direito, mas um dever. E ensinar a amar é a melhor maneira de aprender a amar também.

É essa a sabedoria que eu rogo a Deus todo dia. A sabedoria de amar direitinho, de saber fazer florescer e frutificar e, mais ainda, de saber esperar a colheita oportuna. A sabedoria de saber que, mesmo que, num dia ou em outro, a gente colha um fruto amargo, toda árvore merece a oportunidade de frutificar mais uma vez e provar que é capaz de amar de volta. 

É que tudo que a gente planta com um amor profundo e verdadeiro está fadado a nos trazer alegrias, mesmo que elas demorem. 

Às vezes, eu me pergunto se o terreno não é propício, se vale a pena passar fome esperando aquela fruta em especial, se não é melhor mudar de canteiro ou ir comprar uma fruta já pronta na feira... Até que ponto essa causa é minha? Até que ponto aquela árvore é mesmo de minha responsabilidade? Até que ponto o outro merece esse dispêndio tão grande de minha parte? Sempre fico sem resposta pra essas perguntas, mas continuo segurando a pá, o regador e o coração. 

Acho que estudei o amor quando paguei Fitomorfologia no curso de Bacharelado em Biológicas. Então, hoje, no Dia do Biólogo, desejo muito amor aos amigos da botânica! E mais amor ainda aos de Direito, que parece que nem sabem o que a palavra significa. Beijo no coração!