domingo, 28 de junho de 2015

Solilóquio & Samba

Não sabia como começar essa publicação, então decidi iniciá-la com a verdade: escrevo melhor quando estou triste; e, quase sempre, só escrevo porque estou triste. Pra ser sincera, os únicos textos meus de que realmente gosto são os que redigi enquanto estava triste, imersa naquela melancolia profunda, quando consigo atingir meu ápice de reflexão sobre quaisquer assuntos, o estágio máximo da minha fluidez mental. Melhor: é quando, na verdade, sinto necessidade dessa reflexão. 

A tristeza é um status de introspecção, quando você se volta para você mesmo. Olhar para si é muito mais difícil do que olhar para o mundo, por isso que doi. Você não sofre pelo outro, você sofre por você, por se enxergar numa situação de desalento e desconforto, por ver aquele ser humano todo que você é lamentando e suplicando pela alegria; o que não deve, em qualquer hipótese, ser confundido com pena, autopiedade. Você só se sente triste por lembrar dos lapsos de felicidade a que deseja ter acesso novamente. E eu digo "novamente" porque quem nunca esteve triste não sabe realmente o que é ser alegre, assim como quem nunca esteve alegre não sabe quando está triste; um estado é pressuposto do outro, e o estágio médio entre ambos é um limbo de indiferença, uma quase não existência (explicarei depois o porquê disso).

Então, é exatamente isso: quem é triste devaneia a alegria, porque a tristeza é o hino da esperança de ser alegre. E a esperança, essa maldita (ou bendita), que sobrou no fundo da Caixa de Pandora... Certo dia, alguém narrou esse mito grego para mim e me fez pensar sobre como a esperança é a mola propulsora de tudo que existe no mundo. Acredito que nenhuma ação humana volitiva é feita sem beber dessa fonte. Então, todo ato de vontade é um ato de esperança. 

Mas, enfim. Sei que soa depressivo ter um blog quase inteiramente escrito em relâmpagos de baixo astral, mas não é de tristeza que são feitos os melhores sambas? Vinicius de Moraes foi alguém que soube falar por mim quando cantou o Samba da Bênção:

É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração 
Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza / É preciso um bocado de tristeza / Senão, não se faz um samba não 
(...) Fazer samba não é contar piada / E quem faz samba assim não é de nada / O bom samba é uma forma de oração 
Porque o samba é a tristeza que balança / E a tristeza tem sempre uma esperança / A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não

Escrever, para mim, é a minha oração; como o bom samba é para Vinicius. É na escrita que transcrevo em vocábulos todos os sentimentos, todas as reflexões e todas as preces; é onde toco a esperança do meu samba "de um dia não ser mais triste não". Mas, essa tristeza é bela porque, também como o bom samba, está cheia de Amor. E aquele estágio médio entre um estado (tristeza) e o outro (alegria), que eu disse ser um limbo de indiferença, só é transponível para quem ama. Não amar é não estar susceptível à tristeza nem à alegria, é cair nesse limbo e quase não existir; é não sambar.

Eu até poderia continuar escrevendo muito mais nesse looping mental de hoje, mas vou encerrar o solilóquio por aqui mesmo. Espero sentir menos necessidade de escrever em tão pouco tempo, porque esse samba também cansa. 


sábado, 23 de maio de 2015

Abuso do Papel em Branco Assinado: a fé que o Estado não tutela

No Código Penal pátrio, art. 299, dentro do Título X (Dos Crimes Contra a Fé Pública), há a previsão do tipo penal de Falsidade Ideológica. Ipsis litteris: 
Falsidade ideológica
Art. 299 - Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um a três anos, e multa, de quinhentos mil réis a cinco contos de réis, se o documento é particular.
A despeito dessa tipificação, e adentrando no mundo dos fatos, existe a conduta do "Abuso de Papel em Branco Assinado", na qual o agente, de posse de uma folha em branco previamente subscrita, vem a preenchê-la de forma abusiva, inserindo nela declaração falsa ou diversa da que deveria ser escrita. Isto posto, à guisa das particularidades que essa conduta admite, há duas possíveis configurações: a de Falsidade Ideológica, supracitada, e a de Falsidade Material.

Se o agente obtém o papel assinado em branco de forma ilegal, ilegitimamente (seja por furto, ou por apropriação indébita, por exemplo), está-se diante de uma falsidade material. On the other hand, se o agente tem a posse legítima da folha, estando incumbido de seu preenchimento, e o faz mediante abuso da confiança que lhe foi depositada para tal, inserindo nela declarações falsas ou diversas das que realmente deveria lançar, resta configurado o crime de falsidade ideológica ora analisado. 

Sempre que conhecemos alguém a quem atribuímos certa importância e confiança, damos a esta pessoa uma folha em branco assinada por nós mesmos. A pessoa que recebe esse papel, recebe simultaneamente a incumbência de não apenas zelar por ele, mas de preenchê-lo, tendo, portanto, legitimidade para isso. 

De posse legítima de nossa folha, esse agente passa a lançar nela toda a sorte de declaração que lhe foi confiada: preenche com os momentos compartilhados, com as impressões, com os sentimentos, com as palavras ditas, com as atitudes, com as omissões, com as intimidades, com os lugares visitados, com as festas... Preenche com a história dessa particular interação, com tudo que o agente nos oferece enquanto portador desse papel; o que pode durar dias, meses, ou anos. 

Confiar esse documento em branco tão importante a alguém é a primeira formalidade que deve ser cumprida para podermos viver aquilo que o preencherá. Entretanto, a falta de Segurança Jurídica é inerente a essa entrega, visto a imprevisibilidade da conduta que será praticada pela outra pessoa. É óbvio... A gente nunca sabe o que o outro pretende, o que o outro pensa, o que o outro sente. A gente nunca sabe se a vontade de preencher a folha em branco que recebemos do outro com uma gama de coisas boas é a mesma vontade sentida por quem recebe a nossa. 

E aí, acontece o crime de Falsidade Ideológica: não contra a Fé Pública, mas contra a nossa Fé Individual, a nossa confiança; esse bem jurídico que o Estado não tutela...

O sujeito ativo (agente do crime) preenche a folha com informações que não condizem com a realidade sentida. Ele não vive aquilo com você, ele só quer fazer constar, fazer parecer que algum sentimento existe da parte dele, fazer parecer que merece a sua confiança, dar a entender que leva aquela tarefa que lhe foi incumbida a sério. Mas não leva e, no momento oportuno, você descobre aquela conduta "típica" (no Direito Penal, aquela que se subsume a um tipo penal, a um crime) do Abuso de papel em branco assinado. 

Pela observância do Princípio da Intervenção Mínima, que limita o jus puniendi do Estado (ou seja, o seu direito de punir) e do Princípio da Insignificância, que estabelece limites para a tipificação penal (ou seja, para a capacidade de o Direito Penal tipificar condutas irrelevantes) é fácil entender porque o Estado não tutela esse bem jurídico tão particular, nem pune essa conduta tão reprovável do ponto de vista da vítima.

Talvez o grande problema esteja no fato de que, na falta da tutela estatal, criamos uma amostra grátis de Pluralismo Jurídico, um Direito próprio, conferindo a defesa desse bem jurídico (a Fé Individual, a confiança) a quem não tem interesse suficiente em defendê-lo: o outro. 

É aí que está o nosso erro: confiamos no outro e deixamos essa confiança nas mãos dele, para que ele realize a sua tutela, que zele por ela. Mas essa tarefa deveria nossa. É a nós mesmos que deveria caber o zelo pelos nossos sentimentos, porque só a gente tem interesse suficiente em protegê-los. Ninguém se preocupa com você tanto quanto você mesmo. E isso é uma pena, porque, como já ouvi a minha avó dizer: "o Egoísmo é a chaga da humanidade". 

Mesmo assim, entre o erro de quem confia o preenchimento do papel em branco assinado a quem não merece tal confiança e o erro de quem age de má fé e abusa da confiança que lhe foi depositada, ainda prefiro estar na primeira posição. Porque, por mais que o Direito se abstenha de punir a segunda conduta, a vida pune, nem que seja só com o arrependimento, com a consciência pesada pela traição da confiança alheia, pela oportunidade perdida. E essas punições, infelizmente, costumam ser muito mais severas. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Uma Tarde no Guichê 05

Ontem tive minha primeira experiência sozinha no Atendimento da Defensoria Pública da União em Pernambuco e senti uma imensa necessidade de escrever a respeito. Sem dúvidas, ontem conheci o lado mais importante daquele órgão público: o lado de quem busca a Assistência, de quem necessita dela, de quem se sente injustiçado, de quem não tem outra alternativa... Ontem tive a experiência mais humana da minha vida. 

O simples fato de estar no Atendimento já me parecia desafiador desde o princípio. O que eu direi? O que eu farei? E se me perguntarem algo que eu não tenha conhecimento jurídico suficiente para responder? E se eu der alguma informação errada? E se eu esquecer de algum procedimento? Não seria mais uma petição, ofício, ou recurso, que eu poderia passar horas analisando modelos, melhorando a redação, pesquisando jurisprudência, etc. para elaborar. Era ao vivo, em tempo real, em carne e osso. Mas, desafio dado, desafio aceito; por livre e espontânea pressão, já que o Atendimento é obrigatório na experiência de estágio da DPU. 

E, assim, o "Assistido", que, até então, se restringia a um termo usado para identificar a parte autora no Processo de Assistência Judiciária, personificou-se do outro lado do guichê 05. Incrível! São pessoas de verdade. Com suas vidas, emoções, necessidades, inquietudes; são pessoas que aguardam aflitas a minuta das peças de seu processo, as audiências, as decisões... Mas, principalmente, são pessoas que não estão ali "pra ver se cola", mas porque TEM que colar, porque dependem do ganho daquela causa, da concessão daquele benefício, para a manutenção de sua vida. 

Foi assim que recebi uma senhora de bengala que se recuperava de uma cirurgia na coluna e retornava para saber a quantas andava seu processo para receber uma Pensão por Morte em razão do falecimento de seu ex-marido. A situação era complicada e a Defensoria se habilitou ao processo já em fase recursal, tendo a antiga advogada se adiantado e entrado com o recurso à nossa frente, deixando o Defensor de mãos atadas. Recurso negado, PAJ arquivado pela DPU. E a quem caberia dar a notícia? Analu. Que barra, em meu primeiro dia... Mas eu o fiz. E a senhora desabou em lágrimas, em pedidos de ajuda, em desespero. Eu realmente não sabia o que ainda poderia ser feito, nem a Supervisão sabia ao certo... Fiz o que estava ao meu alcance, relatando tudo e passando todas as informações prestadas pela "Assistida" ao defensor do caso pela ferramenta de Retorno. Mas, acabei sofrendo com ela, por esse sentimento de impotência, por não poder dar uma solução ao seu problema...

Durante toda a tarde, eu ouvi reclamações de quem teve o pedido de conversar diretamente com o Defensor negado pela Supervisão, de quem se sentiu enrolado em atendimentos anteriores, de quem queria mais celeridade, de quem estava inconformado... Mas ouvi também palavras carinhosas de agradecimento, incontáveis "Deus lhe pague", "Deus lhe abençoe", pedidos de desculpa pelo trabalho dado (e até uma promessa de "se eu ganhar na Loteria..." hahahaha). Acho que nada será mais gratificante e engrandecedor do que isso foi. E algo que só dependeu de uma dose maior de "boa vontade" da minha parte para acontecer. 

Acho que nunca aprendi tanto em cinco horas, e com pessoas que, aparentemente, não teriam o que ensinar a alguém a quem elas chamam de "Doutora". Elas podem não saber, mas ontem fizeram de uma simples e cansativa tarde de Atendimento uma experiência de aprendizado incrível. A palavra "Assistido" deixou de ser só uma palavra. Voltei para casa realmente mais humana, mais sensível e mais comprometida com o que eu escolhi como palavra de ordem para a minha vida: AJUDAR. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Anatomia da Alma e Psicologia dos Corpos

Eu não quero aqui entrar em méritos religiosos, mas, pra mim, corpo e alma são uma coisa só. A gente não diz "Aquele corpo dança muito bem", ou "Olha aquele corpo atravessando a rua". A gente se refere àquela "pessoa", porque a essência dela toma a forma do seu corpo, ao mesmo tempo que o corpo é a personificação dessa essência. Eu nunca poderia ser eu mesma sem o meu corpo, nem meu corpo continuaria sendo eu mesma se não fosse habitado por minha alma. Eu só SOU, porque tenho (consciência de que tenho) ambos: corpo e alma. 

Porém, nesses tempos loucos do século XXI, o corpo parece ter se transformado em um mero acessório: moldável, dissociável da alma. O corpo passou a ser um adorno projetável, que se busca modelar constantemente, como se, apesar de necessário, já não fosse mais suficiente para abrigar a nossa essência. Não existe mais aquela resignação, aquele "aceitar a anatomia que Deus deu", entendendo o corpo como um presente do destino, ou um castigo, sei lá. Ao contrário, há uma verdadeira cultura ao corpo: homens e mulheres buscando excelência na moldura, buscando uma forma nova, uma embalagem exclusiva para seu produto. 

Não é algo que eu esteja criticando ou elogiando, só questionando. É que, se eu acredito que o corpo e a alma não podem se dissociar, então, sou obrigada a acreditar também que essa modelagem toda acaba, de alguma maneira, atingindo a nossa essência. A dúvida é se essa busca por uma forma seria motivada pelo fato de a alma estar desconfortável naquele recipiente, precisando, ambiciosamente, adquirir outra embalagem porque seu conteúdo já não é mais o mesmo; ou se, por razões alheias, externas, busca-se mudar a forma para que o conteúdo também se modifique, numa tentativa de elevar a auto-estima, por exemplo. 

Acho a primeira situação absolutamente normal, apesar de reforçar o caráter acessório que o corpo tem tomado. Mas, essa segunda hipótese... Essa segunda hipótese eu não assimilo. 

As mudanças internas são muito mais complexas do que as externas. Você pode fazer um penteado diferente pra mostrar que tem atitude, mas essa atitude não vai passar a fazer parte de você por osmose entre seu eu-lírico e sua escova de cabelo. Você pode se dar de presente uns seios novos, mas a sua auto-estima não vai mudar simplesmente porque você aumentou 2 ou 4 números do sutiã. Seria "tão eficaz quanto mascar chiclete pra tentar resolver uma equação de álgebra": inútil.

Faz umas duas ou três semanas que comecei a malhar e sempre me pego observando as pessoas da academia. Aprendi que isso é um "estudo etnográfico", mas eu só uso esse termo pra diminuir meu sentimento de culpa por ficar analisando a vida alheia mesmo. De toda forma, é curioso ver as pessoas se admirando nas paredes espelhadas, ou olhando seus corpos enquanto fazem musculação. Algumas parecem estar contemplando a beleza daquilo que enxergam, outras parecem estar avaliando os resultados dos exercícios... Não sei.

Mas, qual o mal de elas quererem gostar do que estão vendo no espelho, né?! Acho que isso é sadio, se o conteúdo estiver bem "assentado" na embalagem. Caso contrário, incorre-se no erro de querer mudar, de fora para dentro e às pressas, o que exige uma mudança interna, trabalhosa e demorada. Evite!

Por outro lado, eu também penso o seguinte: pra que serve todo aquele ar que vem dentro do pacote de batatinha Ruffles? Para proteger as batatas. Então, numa analogia bem xexelenta, algumas pessoas poderiam buscar uma forma/embalagem diferente do conteúdo, simplesmente como uma tentativa de auto-proteção. Até porque, hoje, com todo esse culto ao corpo, parece ser um pecado mortal não atender às exigências de mercado; e atender às exigências do mercado funciona como um mecanismo de aceitação social que pode (mas não deveria) influenciar, sim, na auto-estima das pessoas, na essência.

Não sei que linha de raciocínio está correta, mas eu vou continuar o meu Projeto Verão 2015 mesmo pra, finalmente, ganhar as pernas de Sabrina Sato e sambar na cara da sociedade. Então, podem me julgar também! Hahahaha... Talvez as pernas da minha alma não caibam mais nessa circunferência das minhas coxas, como elas mesmas já não cabem mais em algumas de minhas roupas antigas. #VlwFlws

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Um sanduíche pra tantos problemas

Estive lembrando hoje de uma inquietação antiga. Não faz muito tempo, eu morava em Nazaré da Mata e vinha todos os dias para Recife assistir aula. A viagem era longa por causa do trânsito (de casa até a faculdade, gastava 2 horas e 30 minutos), mas a paisagem, tão bela, trazia uma quietude ímpar que aliviava o pesar e o cansaço. Pouca gente sabe a sensação de viajar na madrugada. Sair de casa no escuro (4h50 ainda parece noite) e ver o Sol nascendo, refletindo na paisagem, esbranquiçada por aquele vapor suspenso que restou da noite fria... Para quem faz essa viagem de ônibus interurbano, indico meu trecho predileto: na altura em que o motorista sai do trajeto e se dirige a Tiúma para seguir a Camaragibe. Valia a pena abrir os olhos nesse trecho, mesmo quando eu tinha virado a noite estudando para as provas, só para dar uma espiadinha, porque esse cenário fazia com o meu humor o que nenhuma torta de morango consegue fazer. Hehehe... E, para me ajudar a aguentar essas viagens, minha mãe, todos os dias, às 4h30, acordava e preparava meu café da manhã e uns sanduíches para eu comer na volta. Eram dois e, ela não sabe, mas eu só comia um. 

Nesse período, eu só conhecia um único trajeto para a Faculdade de Direito do Recife: atravessando pela Avenida Conde da Boa Vista. Uma caminhada de 2 minutinhos que definia o meu humor do dia. Era esse trechinho curto, naquelas ruas sujas e mal cheirosas, que determinava como eu me sentiria pelo resto da manhã. 

Acontece que, para quem tem a infelicidade de andar por essas ruas, algumas cenas são impossíveis de não serem percebidas. Alguns moradores de rua, em sua maioria crianças, se dispõem pelas calçadas, em colchões velhos ou papelões, onde passam a noite. Aquela noite, sabe, que eu tinha dormido quentinha na minha cama fofa em Nazaré da Mata, debaixo do teto seguro do meu quarto, com meus dois travesseiros? É, aquela noite, eles tinham virado sob a lua, olhando para as estrelas (isso até soa romântico, mas não é), com frio, no desconforto do chão, sem qualquer proteção, à mercê da própria sorte, apelando para que não chovesse... E continuavam ali pela manhã, como parte do cenário urbano, mas invisíveis para o Estado, até sendo tidos como um incômodo, um defeito na paisagem que precisa ser removido, mas não necessariamente consertado. 

Se eu tinha saído de casa com algum problema na cabeça, essa cena me fazia parar para refletir sobre a relevância das minhas preocupações. Então, eu agradecia a Deus por ter problemas tão ínfimos e, sendo suficientemente egoísta, sentia de volta minha tranquilidade, enquanto repousava um dos meus sanduíches no colchão de alguma das crianças: a sortuda que teria café da manhã naquele dia. 

Como se encontrar alguém num estado pior que o meu fosse motivo para alegria. 

Mas, se eu tinha saído de casa feliz e carregado comigo aquela paz transmitida pela paisagem da viagem, ao me deparar com esse cenário hostil, sentia um peso na consciência que roubava meu bom-humor, por me mostrar o quão injusto e vergonhoso era eu ter tanto e outra pessoa, tão digna dessa plenitude quanto eu, não ter nada. Então, eu dividia o que eu tinha, abrindo mão de um dos meus sanduíches. 

Como se 1 sanduíche fosse capaz de acabar com a fome do mundo.

Em uma dessas passagens, a que mais me chocou, uma criança estava acordando enquanto eu atravessava a rua. Ainda com os olhos fechados, ela foi se espreguiçando, tateando o papelão em que estava deitada e, como um cão, farejando e lambendo-o, até encontrar o que queria, seu café da manhã: cola. Nunca encontrei palavras que descrevessem o que essa cena representou para mim. Em Nazaré, essa realidade nunca me tinha sido tão próxima, tão palpável... 

Cheguei a comentar sobre essa inquietação com alguém e essa pessoa sugeriu que eu mudasse meu trajeto: "passa por outra rua". Não sei se foi o caso de quem me deu esse conselho, porque não consigo lembrar quem me disse isso, mas lidar com pessoas completamente alheias a essa realidade, limitadas ao conforto do ar-condicionado de seus carros, acabou me deixando profundamente aborrecida. Eu não queria ter que ignorar os fatos, eu queria alterá-los. Esse é o retrato da pobreza, um ato de violência praticado pelo Estado que, de tão comum, parece ser normal. Então, torna-se mais fácil desviar da "pedra no meio do caminho" já que se considera natural que ela exista ali.

É terrível me sentir de mãos atadas. Eu sei que poderia levar uma padaria inteira para alimentar a Conde da Boa Vista, mas isso não acabaria com a fome. É impossível botar todo mundo no colo e levar para casa também; isso nunca resolveria o problema da falta de moradia. Não quero mais falar de caridade, quero falar de mudança. Talvez seja uma pretensão muito ambiciosa ou muito ingênua da minha parte querer modificar essa realidade. Mas, como se coloca esse plano em prática, afinal? 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vivendo e aprendendo: sentindo e comparando

"Sem o amargo, o doce não seria tão doce." 

Li essa frase hoje e refleti um pouco sobre ela... Acabei ficando cheia de questionamentos. Ainda não sei até que ponto essa mania que a gente tem de fazer comparações é positiva. Sabe quando você fala sobre um problema para alguém e essa pessoa joga os problemas dela na sua cara para mostrar o quão diminuta é a sua preocupação? 

"Meu namorado e eu brigamos."
"Pior sou eu, que nem tenho namorado."

"Tou triste porque reprovei."
"Pior é na guerra."

Todo mundo faz isso, sim, mas, será que é certo menosprezar a tristeza do outro só porque você ou alguém já conseguiu lidar com algo pior e escapar com vida? O outro não tem o direito de ser mais frágil que você? Quem determina a sensibilidade desse termômetro de validade de problemas? 

Pensar que "poderia ser pior" até funciona mesmo, às vezes, mas por que o meu sentimento de agora tem que se basear no meu sentimento de outrora ou no sentimento dos outros para adquirir sentido, para parecer que "vale a pena"? Por que a gente não pode simplesmente reconhecer a felicidade de um amor tranquilo (e doce) sem ter noção ou sem compará-lo àqueles momentos de turbulência (amargos)? Por que a intensidade do bem-estar ou do mal-estar tem que variar sempre de acordo com uma "valoração comparativa"? 

Desculpem-me por inundá-los com tantas perguntas retóricas. Mas, me parece que isso também é inerente ao ser humano e acho que é por causa desse tipo de coisa que existe aquela ideia do "só dá valor quando perde". A gente só se dá conta do bom quando se vê diante do ruim. É como um reconhecimento de cargas: só diferenciamos o positivo do negativo quando os unimos numa mesma experiência, né?! 

Então, talvez, o motivo de se dizer que se aprende a viver com o passar do tempo signifique, na verdade, que, com o passar do tempo, consiga-se experimentar coisas suficientemente diversas para se aprender a fazer comparações cada vez mais eficientes e, a partir delas, valorar melhor os acontecimentos. Mas , nesse caso, quer dizer que alguém que experimentou pouco da vida não teria a capacidade de reconhecer algo que lhe faz bem ou não? 

Ah, enfim... Acho que esse post ficou um pouco confuso, mas, deixo aí meus questionamentos para vocês se questionarem também. E desejo a todos ouvir/dizer menos a ladainha do "eu era feliz e não sabia".

sábado, 7 de dezembro de 2013

Eu, por mim mesma. Versão 2014.

Ainda não havia percebido que já estamos em Dezembro. Parece que foi ontem que minha vida era completamente diferente. Mas foi ano passado... rsrs. Esse não é um post de retrospectiva 2013 (mas, não nego que tem um filme passando na minha cabeça agora). Simplesmente, li algo ontem que me deixou bastante reflexiva a respeito de mim mesma e me levou a fazer todo um trabalho chato e absurdamente dispendioso de auto-análise.

Essa minha introspecção é tão cansativa. Acho até egoísmo da minha parte perder tanto tempo na árdua tarefa de olhar pro meu interior, enquanto tem um mundo inteiro esperando atitudes. Mas, por enquanto, ainda é algo que foge à minha vontade; e eu me apego ao fato de que a mudança é a força motriz dessas atitudes e o seu vetor tem sentido e direção que apontam para fora: começa de dentro. O problema é que, quanto mais eu me aproximo de mim mesma para me enxergar melhor, mais os meus defeitos se sobressaltam. Então, joguei na minha cara hoje essas besteiras todas que eu fiz o ano inteiro, para montar, da maneira mais clichê que você imaginar, aquela lista mental de atitudes para o ano seguinte. 

Desde que vim morar na praia, o mar tem sido um grande companheiro nessas introspecções. Olhar para o mar é como olhar um espelho que reflete a alma. Isso soa semelhante, mas não se parece em nada com narcisismo. Isso porque não é o meu reflexo ou a minha reflexão que me cativam nele. É que a beleza do mar é tão límpida, tão serena e, prolongando-se em toda a linha do horizonte, tão repetitiva, sem obstáculos, que faz os pensamentos fluírem com mais facilidade. Penso também que a razão disso está no fato de o mar não ter defeitos para, aliado ao meu perfeccionismo (com o qual, esse ano, aprendi a lidar muito bem), tirar a minha atenção. Mas, isso é assunto para um outro momento.

Enfim, o primeiro e mais importante fruto dessa introspecção foi perceber o quanto tenho sido exigente comigo mesma e com os outros. Eu sou o tipo de pessoa que, quando quer realmente fazer/ter algo, não mede esforços para isso. Sempre me doei muito nos relacionamentos (amorosos ou fraternos) e, inconscientemente, acabo exigindo dos outros um mesmo grau de doação, sob o risco de julgar haver uma falsa recíproca e de dramatizar completamente a situação. Mas, hoje, entendi que cada um tem sua própria perspectiva e o que é um esforço mínimo para mim pode ser o máximo de esforço que alguém é capaz de fazer! Qual a dificuldade de respeitar e reconhecer as limitações e os feitos das outras pessoas e ser grata por isso? Primeiro ponto da lista. 

Olhando um pouco mais de perto, enxerguei melhor algo que eu, de certa forma, já havia notado, mas negligenciava: tenho o chato costume de debater exaustivamente um tema, até esgotá-lo. Isso porque acho que transparência é tudo e que, quanto mais esclarecer qualquer assunto, tanto menor será o abismo gnoseológico ou a chance de aquele assunto voltar a gerar um desentendimento. O problema é que isso é CHATO PRA CARAMBA e uma perda de tempo sem tamanho, já que é impossível conseguir chegar à exaustão de um tema. Então, por que não deixar assuntos irritantes e irrelevantes no canto deles e preferir sempre as conversas agradáveis? Mais um ponto da lista.

Hoje, eu confirmei também o quanto a baixa auto-estima pode afetar a maneira como me relaciono com as pessoas, a ponto de me sujeitar a uma constante moldagem para tentar agradá-las. Mas, por que eu tenho que internalizar as expectativas alheias e tentar atingi-las ou superá-las, de modo a garantir a permanência dessas pessoas em meu convívio, e me deixar por último na minha escala de prioridades? Melhore, bicha!!! Essas mudanças que elegi só fazem sentido se servirem para a MINHA própria satisfação, para o MEU bem-estar. Não se trata de atender às expectativas dos outros, mas de atender às MINHAS expectativas quanto à maneira como me relaciono com os outros. E isso não é uma questão de egoísmo. Apenas percebi que sou melhor para os outros quando sou melhor pra mim. 

Não acredito que essas (e todas as outras que pensei) sejam coisas fáceis de se modificar, visto que se tratam de hábitos. Mas, ter percebido esses hábitos hoje e pensar em mudá-los, "chacoalhou"-me de certa forma a querer continuar nesse trabalho de aperfeiçoamento interior, que iniciei no começo desse ano. Cada dia que passa é um dia a mais para se construir e um dia a menos no prazo de entrega da obra. Desejo-me sorte e "operosidade" para 2014! hahaha

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fui pra rua!


Fui pra rua! Fui pra rua, não porque acordei, mas porque LEVANTEI. E levantei junto a outros 100 mil pernambucanos. Fui pra rua porque cansei de ser (mal) representada nisso que chamam de Democracia. Fui pra rua porque tenho ideais, porque tenho esperança. Fui pra rua porque cansei de postar no facebook o que nem a presidente, nem o governador, nem os deputados e senadores chegarão a ler. Fui pra rua porque quero educação, saúde e transporte público de qualidade. Fui pra rua porque quero mudança, porque quero reforma política e tributária, porque quero uma faxina no Congresso. Fui pra rua contra a PEC37. Fui pra rua honrar o passado histórico de luta do meu estado. Fui pra rua porque amo o meu país. Fui pra rua porque... Não quero me mudar do Brasil. Quero mudar o Brasil!

(Deveria ter publicado aqui antes, mas estava esquecida de que tinha um blog. rsrs.. Não vou prometer assiduidade, porque sei das minhas limitações para cumprir isso. Mas, pretendo não mais esquecer do meu bloguinho por causa da faculdade.)
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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Meus valores são melhores que os seus!

A justiça dos homens é a mais severa de todas: suas leis confundem verdades com convicções, valores com dogmas e moral com tabu; suas normas de conduta subjugam as minorias, exaltam a intolerância, aprisionam seu próprio povo e silenciam até o pensar. Nessa justiça, o homem é, simultaneamente, juiz, advogado, promotor e réu; aponta o erro, julga, é julgado, condena, é condenado e defende quem comunga de sua visão. É a mais falha das justiças, mas a mais valorizada. 

A justiça dos homens é o olhar desconfiado que se volta para um negro. É a xenofobia. É a cara de nojo numa cena de romance protagonizada por homossexuais. É o medo do candomblé. É a rejeição ao que lhe é diferente. É a generalização. É o duplipensar. É a intolerância. São as cotas raciais. É o "Orgulho Gay", a "Consciência Negra", o "Feminismo", a distinção do que deveria ser (e é) uma coisa só. 

A justiça dos homens repudia a imoralidade com a própria imoralidade. Instala um preconceito ao próprio preconceito. Não tolera a intolerância. É a contradição de querer impor um ponto de vista, com um grito de guerra que, supostamente, clama por liberdade de escolha. 

Resolvi escrever sobre isso, porque o tema tem me incomodado profundamente. Já chegou ao ridículo esse embate religioso, sexual, político e ideológico que vem sendo travado diariamente nas redes sociais e marcado por polêmicas aberrativas a nível nacional. É vergonhoso, eu sei, ainda conviver com o preconceito. Mas, alguém já parou pra pensar que, o que antes era tido como uma minoria oprimida, agora é uma maioria que oprime? As pessoas então repudiando o preconceito e criando um novo preconceito: o preconceito ao preconceituoso. Isso é completamente paradoxal! Enlouqueceria qualquer sociólogo. 

Não pretendo fazer apologia a nenhum tipo de fobia, mas, essas discussões todas sempre acabam me parecendo uma coisa só: o sujo falando do mal lavado. Cada um tem sua convicção, suas certezas, suas crenças, etc. e todos querem ter seu espaço respeitado. O problema é que a ideia agora é diferente: não basta ter seus próprios valores, tem que exaltá-los EM DETRIMENTO dos valores dos outros! Não  basta ter fé, tem que criticar a religião dos outros. Não basta ter sua opção sexual, tem que rejeitar a opção dos outros. Não basta ser bom, tem que apontar os defeitos dos outros. A grama do vizinho nunca foi tão podre na boca de quem critica. 

Pelo meu ponto de vista, instaurou-se um repúdio aos preconceituosos, não ao preconceito. Os religiosos odeiam os intolerantes, não a intolerância. Os homossexuais lutam contra os homofóbicos, não contra a homofobia. É o ódio, como sempre, regendo as relações humanas na sociedade. É a justiça dos homens mostrando pra que foi criada.

O problema é que essa "INjustiça dos homens" tá muito mais enraizada do que a gente imagina. Ela está no berço da sociedade, na instituição mínima do social: a Família. E nela, falta diálogo, falta tolerância... Falta EDUCAÇÃO DOMÉSTICA! O medo impõe normas, mas não as torna verdades absolutas. Cartazes, gritos, protestos, violência e sofativismo nunca mudaram a maneira de pensar de alguém. Equidade não se impõe: o preconceito só vai acabar quando as pessoas se sentirem semelhantes, não enquanto forem forçadas a isso. 

sexta-feira, 29 de março de 2013

"A voz do anjo sussurrou no meu ouvido..."

Já perceberam como tem músicas que a gente canta como uma oração? Música que toca bem lá dentro da alma. Mexe com a cabeça da gente, inquieta o espírito, acelera o coração. Um frenesi ritmizado, um delírio. A gente canta mais com a voz da alma, do que com a própria voz. A gente canta de olhos fechados e mãos voltadas para o céu (se você pensou naquele swing que faz a galera levantar o copo e colocar o dedinho pra cima, se mate). A gente sente mais a música do que ouve... 

Chega a ser um sentimento doloroso algumas vezes. Quase uma súplica, com sobrancelha franzida e tudo. Mas uma súplica da alma, não do corpo! É a alma dando seu grito silencioso por liberdade, que só o coração escuta. 

O primeiro sinal é a vontade de fechar os olhos, querer se desligar de tudo (fones de ouvido ajudam nessas horas). Você passa a querer ouvir (e sentir) apenas a melodia. Procura reconhecer a vibração de cada instrumento. O balanço é lento, mesmo que a batida seja rápida, mas você não foge do ritmo. A alma se inquieta, mas o corpo se acalma. Aí, você levanta os braços, como se tentasse captar alguma coisa do céu. Como se estivesse recebendo a energia suplicada, enquanto a oração vai sendo entoada... Que sensação! Não sei se quem compõe faz tudo de caso pensado. Ou se simplesmente tem o dom de criar esse êxtase naturalmente em quem ouve. Mas essas músicas chegam no metafísico, no alter-ego, no transcendental...

Eu não lembro a primeira vez que senti isso. Mas lembro das músicas que me fazem sentir... A do título, "Anunciação" de Alceu Valença, é uma delas. Assim como "White Blank Page" de Mumford & Sons, "Why Does My Heart Feel So Bad?" de Moby, "She's Madonna" de Robbie Williams, "Quem Sabe" de Los Hermanos, tantas e tantas músicas de Coldplay, "Supermassive Black Hole" de Muse, "You've Got The Love" de Florence And The Machine, "Holiday" de Scorpions, "Snow" de RHCP, os solos de Dire Straits, de White Stripes, de Carlos Santana... 

Eu poderia passar o dia citando músicas aqui! Mas, além de cansativo, talvez nem todos conseguissem sentir o mesmo que eu sinto. Então, não adiantaria. As músicas têm efeitos diferentes em cada pessoa, porque cada um tem uma inquietação própria na alma, uma dor organizada num sentimento bagunçado, uma súplica única... Se quiserem fazer o teste, escutem essas que citei e citem as suas para que eu escute também! Não garanto que sintam o mesmo que eu, nem garanto que sentirei o mesmo que vocês. Mas, ao menos teremos compartilhado boas músicas! Rsrs.