terça-feira, 15 de maio de 2018

Grandezas Relativas

Meu pai tem uma mania irritante de nos marcar em todas as publicações que encontra na internet. Um dia, ele me mencionou em um texto no Facebook que dizia: “apaixone-se por um grande homem, e nunca mais voltarás a chorar”. Eu nunca segui seu conselho. Não porque desse de ombros e achasse desimportante, mas porque meu coração sempre teve um déficit cognitivo para reconhecer essa espécime rara de Homo sapiens que seria o “grande homem” pelo qual valeria a pena me deixar apaixonar.

A verdade é que, reza a lenda, eu tenho aquele “dedo podre” para escolher pessoas que caminharão ao meu lado, sabem?! Normalmente, o cupido aponta no sentido de seres humanos pouco interessados, pouco amorosos, rasos, falsos, fúteis... e eu os sigo, sou atropelada pela sua insensibilidade, levanto e, com muito esforço e tempo, mudo de estrada, em direção ao próximo coração gelado da vez. 

Karma? Destino? Chamem como quiserem. Mas a verdade é que, depois desses meus 25 anos, aprendi que meu “grande homem” não será aquele que tiver mais qualidades, mas aquele que mais souber valorizar e apreciar as MINHAS qualidades, que mais souber reconhecer que EU também sou uma “GRANDE MULHER”

Então, apropriando-me do conselho amoroso do meu pai, queria deixar a minha adaptação pessoal para quem também precisa dela: “apaixone-se POR SI MESMA e nunca mais voltarás a chorar”

Textinho curto só pra desejar um bom dia e ressuscitar meu bloguinho esquecido! Beijos no coração! 

sábado, 30 de dezembro de 2017

Feliz Arco-íris Novo!

Ontem, eu estava tomando banho e notei que os raios de sol que entravam pela janela do banheiro tocavam a água que caía do chuveiro de tal forma que me permitiam enxergar um arco-íris. Eu já tinha lido um pouco sobre esse fenômeno, na época do colégio, e sabia que ele era causado pela refração da luz solar nas gotas de água.

Longe da Física, parei pra pensar um pouco (tá explicado porque meus banhos podem ser tão demorados) no que a figura do arco-íris costuma representar: o fim da tempestade, a bonança, o momento em que o sol volta a brilhar... Mas arco-íris também é a gargalhada que a gente solta, contando aquela história que, há meses ou anos atrás, nos magoou e fez chorar. Arco-íris também é aquele abraço que a gente dá quando finalmente fazemos as pazes depois de uma briga. Arco-íris é aquela nota boa que a gente tira depois de passar dias e perder noites estudando. É aquela pessoa incrível que a gente encontra depois de uma coleção de decepções. Arco-íris é "um ventilador ligado no 3". 

O problema é que, da mesma forma que a gente tende a pensar que o arco-íris é um fenômeno óptico distante da nossa pequenez humana, tão grande quanto a natureza e impossível de se reproduzir longe da imensidão do céu; acreditamos que o arco-íris da nossa vida, onde tá escondido o pote de ouro da felicidade, independe de nós e só vai surgir naquele "final feliz", que até desacreditamos se virá realmente, desconsiderando todos os arco-íris que constantemente nos povoam. 

Desconhecemos o poder que nós mesmos temos de pintar e enxergar vários arco-íris na nossa vida e na do outro! Cada atitude da gente é uma gota em potencial pra que o sol brilhe em nós e a luz seja refratada. Assim como eu posso fazer, eu mesma, um arco-íris, abrindo meu chuveiro; eu posso pintá-lo todos os dias com minhas atitudes, decisões e pensamentos. Basta que minha casa esteja sempre com as janelas bem abertas pra o Sol entrar!


Desejo a todos vocês um ano de muitos arco-íris!!! Que vocês reconheçam todos os arco-íris que não enxergaram em 2017, e que possam, além de perceber cada novo que surgir em 2018, pintá-los com suas próprias mãos! Beijo no coração!!!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

"O banho nosso de cada dia, dá-nos hoje"

Acho que a maioria que vai ler isso nunca parou pra pensar que um banho poderia representar uma expressão de dignidade, né?! Um ato tão simples, que a gente repete quantas vezes quiser (ou precisar), a qualquer hora do dia, naquela aguinha quente do chuveiro elétrico, ouvindo música alta, aparando a água com as mãos, passando uns minutos inerte embaixo dela, só pra sentir o corpo inteiro relaxando e poder tomar as próximas (difíceis) decisões: qual será o shampoo da vez? Uso meu sabonete esfoliante? Será que dá tempo de testar minha nova hidratação? 

Mas acredito que todo mundo aqui já passou pela péssima experiência de tomar banho com um balde. No interior ou na praia, às vezes, faltava "água na rua" e a gente se via obrigado a isso. Oportunidade pra tomar banho com água mineral e deixar meu cabelo mais bonito? Se tava muito fria, Santa Luzi vinha com uma chaleira e despejava água quente pra facilitar a vida da gente. Ótimo! Mas como era chato ficar jogando água na cabeça, viu?! Meu pai resolvia logo o incômodo, construindo uma cisterna e instalando uma bomba que "tocava a água para a caixa". Lembro como se fosse hoje, no meio de vários banhos, eu gritando "Alguém liga a bomba, por favor, que acabou a água!". E a mágica do conforto acontecia. 

Na minha infância também, quando eu ia para o acampamento de férias, experienciava desconfortáveis racionamentos de banho. Eram 10 meninas em cada quarto, com apenas 1 chuveiro. Limitavam nosso tempo na água, mas aquilo nem era água, era gelo. Havia quem não encarasse de manhãzinha, mas eu ia na garra, porque só acordo de verdade assim. Levantava mais cedo que todas, porque o tempo era curto e eu tinha minhas táticas, né?! Primeiro, as mãos e os pés, depois os membros, o tronco e, finalmente, enfiava a cabeça, pulando freneticamente. Aguentava tudo me lembrando de que, em alguns dias, aquele sofrimento acabaria e eu estaria na minha casinha com aventuras de uma semana super divertida e bem "selva" pra contar. 

Hoje, entretanto, vi uma publicação do Diário de Pernambuco e foi inevitável lembrar e refletir sobre tudo isso. O link da notícia é esse: 


Trata-se de uma ONG que capitaneia um projeto de criação de ônibus para oferecer banhos gratuitos a moradores de rua aqui na capital. 

Ano passado, quando tava voltando pra casa, presenciei um menino "invadindo" a torneirinha de um estabelecimento comercial na esquina com a Av. Ayrton Senna. Ele pegava a água com as mãos em concha e ia levando às partes do corpo, no meio da rua mesmo, com os carros passando, com gente feito eu olhando. Colocava a água na boca enquanto fazia isso: também era uma oportunidade de matar a sede, afinal. Eu tinha acabado de retornar da academia e, em poucos minutos, estaria em mais um ritual debaixo do chuveiro e esqueceria aquela cena. 

O vídeo, na notícia do Diário, mostra Fábio que, assim como o menino que eu vi, precisa submeter sua higiene (quando é possível realizá-la) a condições sub-humanas. Lembrei do desconforto dos banhos com balde na infância, das experiências geladas no acampamento... Era tudo transitório pra mim: eu sabia que, cedo ou tarde, meu banho quentinho se restabeleceria. Mas, pra essas pessoas, a situação é permanente. Eles convivem, todos os dias, com um racionamento compulsório de banho, são obrigados a se utilizar de locais completamente inapropriados pra isso, numa condição degradante que tá "banhos-luz" de corresponder ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, que a nossa CRFB/88 faz questão de ostentar como fundamento. 

O Prosol é, sim, um projeto muito humano, mas que, infelizmente, escancara a falta de "humanidade" em que esses moradores vivem. E não, eu não quero dizer que essas pessoas são menos dignas ou menos humanas só por não tomarem banho como eu tomo. O que eu quero dizer é que, justamente por serem humanas como eu, são tão dignas quanto qualquer outra pessoa ao acesso a um banho, tendo violados os direitos inerentes à sua condição de ser humano quando precisam se submeter a essa precariedade. E isso porque eu só tou falando de banho, né?! Se a gente fosse elencar tudo a que Fábio não tem acesso... Haja caracteres. 

Enfim, fazia tempo que eu não publicava nada novo aqui e quis compartilhar esse sentimento de revolta e de impotência de hoje. Sei que não dá pra oferecer meu banheiro a cada pessoa que tá na rua e precisa de um banho, de muitos banhos. Sei que centenas de ônibus adaptados com chuveiro não vão mudar a condição de vida dessas pessoas. Sei que existem direitos ainda mais urgentes pra gente cuidar... Mas acho que toda grande mudança parte de uma pequena reflexão e eu quis trazer a minha pra, ao menos, incentivar novas reflexões que resultem em mais projetos como esse. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"Sujeito" atualizado

Só para atualizar com a informação de que, finalmente, depois de 4 anos, editei a aba "Sujeito" aqui do blog, que traz a descrição do eu-lírico dessas publicações: EU. Foi difícil, demorado, o resultado não ficou satisfatório, mas, pelo menos, eu o fiz hahaha. Até a próxima ;) 

Pé de Amor

Todos os dias, eu acordo sem a certeza do que as próximas 24h me reservam. Todos os dias, essas 24h me surpreendem. E, no último minuto do meu dia, quando eu fecho os olhos pra fazer uma prece, eu peço a Deus o que é mais essencial à minha sobrevivência: que eu saiba amar.

Que eu saiba amar, Papai do Céu! Todos os dias em que eu viver! Que eu saiba reconhecer o amor em cada pessoa que cruzar o meu caminho, que eu saiba ensinar o amor a quem não sabe amar, que eu saiba me doar por esse amor, que eu saiba ser paciente nele e, assim, colher seus frutos. 

Quando a flor de uma árvore é polinizada e seus óvulos são fecundados, ocorre a liberação de alguns hormônios. Esses hormônios provocam o desenvolvimento do ovário daquela florzinha, a fim de suprir as necessidades dos embriões que estão se formando no seu interior e que precisam de um abrigo eficiente e nutritivo. Esse ovário desenvolvido, geralmente de sabor agradável, é o que a gente chama de Fruto. 

Toda a fruta passa por estágios de amadurecimento até adquirir sua composição ideal para ser recipiente daqueles embriões. O agente responsável por essas modificações é um hormônio gasoso chamado Etileno. Assim, à medida que o Etileno vai sendo produzido, a fruta vai se tornando macia e docinha, saborosa ao nosso paladar.

Entretanto, não é só o seu sabor que muda! Toda a composição da fruta vai sendo modificada, formando-se mais e mais açúcar, sintetizando-se substâncias novas, até que se atinja o auge nutricional daquele fruto, a sua maturidade. Chega-se, então, no momento certo de colher e saborear!

O amor, assim como as árvores, começa em uma sementinha, que a gente planta e vai cuidando, até que brote, cresça e floresça. Aprender a amar é quase como um curso de jardinagem, de botânica, sei lá... E o segredo desse curso, o seu TCC, está em saber fazer aquele amor dar frutos e colhê-los no tempo certo, quando se pode tirar o maior proveito deles. 

Um fruto verde, assim como um amor imaturo, é rígido e azedo. Seu sabor desagradável está acompanhado de ácidos que, quando ingeridos, podem causar desconfortos abdominais, sendo difícil a digestão desse tipo de alimento. Da mesma forma, um fruto que passou do ponto, que, já estando maduro, foi esquecido, começa a ser decomposto; iniciando-se uma fermentação que, se ingerida naquele estágio, também resultará em sabor desagradável e problemas gastrointestinais.

Mas, veja bem... Se a gente puxar um fruto do pé antes do tempo, vai amargar esses dissabores pela impaciência. Só que, quando a gente fala de amor, o acre é muito mais intenso. 

Tem amor que a gente planta no jardim do outro e não brota. Deixa a gente sem esperanças. Tem amor que a gente rega direitinho e ele floresce, mas não dá frutos, só embeleza. Deixa a gente com fome. E tem amor que frutifica, que alimenta, que sacia. Deixa a gente com vontade de dividir todos aqueles muitos frutos com quem estiver ao redor. 

A fome de amor é, talvez, a mais miserável violência que um homem pode sofrer. A gente pode até não saber amar, mas não amar beira uma forte ofensa à dignidade da pessoa humana! Acho que amar não é nem um direito, mas um dever. E ensinar a amar é a melhor maneira de aprender a amar também.

É essa a sabedoria que eu rogo a Deus todo dia. A sabedoria de amar direitinho, de saber fazer florescer e frutificar e, mais ainda, de saber esperar a colheita oportuna. A sabedoria de saber que, mesmo que, num dia ou em outro, a gente colha um fruto amargo, toda árvore merece a oportunidade de frutificar mais uma vez e provar que é capaz de amar de volta. 

É que tudo que a gente planta com um amor profundo e verdadeiro está fadado a nos trazer alegrias, mesmo que elas demorem. 

Às vezes, eu me pergunto se o terreno não é propício, se vale a pena passar fome esperando aquela fruta em especial, se não é melhor mudar de canteiro ou ir comprar uma fruta já pronta na feira... Até que ponto essa causa é minha? Até que ponto aquela árvore é mesmo de minha responsabilidade? Até que ponto o outro merece esse dispêndio tão grande de minha parte? Sempre fico sem resposta pra essas perguntas, mas continuo segurando a pá, o regador e o coração. 

Acho que estudei o amor quando paguei Fitomorfologia no curso de Bacharelado em Biológicas. Então, hoje, no Dia do Biólogo, desejo muito amor aos amigos da botânica! E mais amor ainda aos de Direito, que parece que nem sabem o que a palavra significa. Beijo no coração!

domingo, 28 de junho de 2015

Solilóquio & Samba

Não sabia como começar essa publicação, então decidi iniciá-la com a verdade: escrevo melhor quando estou triste; e, quase sempre, só escrevo porque estou triste. Pra ser sincera, os únicos textos meus de que realmente gosto são os que redigi enquanto estava triste, imersa naquela melancolia profunda, quando consigo atingir meu ápice de reflexão sobre quaisquer assuntos, o estágio máximo da minha fluidez mental. Melhor: é quando, na verdade, sinto necessidade dessa reflexão. 

A tristeza é um status de introspecção, quando você se volta para você mesmo. Olhar para si é muito mais difícil do que olhar para o mundo, por isso que doi. Você não sofre pelo outro, você sofre por você, por se enxergar numa situação de desalento e desconforto, por ver aquele ser humano todo que você é lamentando e suplicando pela alegria; o que não deve, em qualquer hipótese, ser confundido com pena, autopiedade. Você só se sente triste por lembrar dos lapsos de felicidade a que deseja ter acesso novamente. E eu digo "novamente" porque quem nunca esteve triste não sabe realmente o que é ser alegre, assim como quem nunca esteve alegre não sabe quando está triste; um estado é pressuposto do outro, e o estágio médio entre ambos é um limbo de indiferença, uma quase não existência (explicarei depois o porquê disso).

Então, é exatamente isso: quem é triste devaneia a alegria, porque a tristeza é o hino da esperança de ser alegre. E a esperança, essa maldita (ou bendita), que sobrou no fundo da Caixa de Pandora... Certo dia, alguém narrou esse mito grego para mim e me fez pensar sobre como a esperança é a mola propulsora de tudo que existe no mundo. Acredito que nenhuma ação humana volitiva é feita sem beber dessa fonte. Então, todo ato de vontade é um ato de esperança. 

Mas, enfim. Sei que soa depressivo ter um blog quase inteiramente escrito em relâmpagos de baixo astral, mas não é de tristeza que são feitos os melhores sambas? Vinicius de Moraes foi alguém que soube falar por mim quando cantou o Samba da Bênção:

É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração 
Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza / É preciso um bocado de tristeza / Senão, não se faz um samba não 
(...) Fazer samba não é contar piada / E quem faz samba assim não é de nada / O bom samba é uma forma de oração 
Porque o samba é a tristeza que balança / E a tristeza tem sempre uma esperança / A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não

Escrever, para mim, é a minha oração; como o bom samba é para Vinicius. É na escrita que transcrevo em vocábulos todos os sentimentos, todas as reflexões e todas as preces; é onde toco a esperança do meu samba "de um dia não ser mais triste não". Mas, essa tristeza é bela porque, também como o bom samba, está cheia de Amor. E aquele estágio médio entre um estado (tristeza) e o outro (alegria), que eu disse ser um limbo de indiferença, só é transponível para quem ama. Não amar é não estar susceptível à tristeza nem à alegria, é cair nesse limbo e quase não existir; é não sambar.

Eu até poderia continuar escrevendo muito mais nesse looping mental de hoje, mas vou encerrar o solilóquio por aqui mesmo. Espero sentir menos necessidade de escrever em tão pouco tempo, porque esse samba também cansa. 


sábado, 23 de maio de 2015

Abuso do Papel em Branco Assinado: a fé que o Estado não tutela

No Código Penal pátrio, art. 299, dentro do Título X (Dos Crimes Contra a Fé Pública), há a previsão do tipo penal de Falsidade Ideológica. Ipsis litteris
Falsidade ideológica
Art. 299 - Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um a três anos, e multa, de quinhentos mil réis a cinco contos de réis, se o documento é particular.
A despeito dessa tipificação, e adentrando no mundo dos fatos, existe a conduta do "Abuso de Papel em Branco Assinado", na qual o agente, de posse de uma folha em branco previamente subscrita, vem a preenchê-la de forma abusiva, inserindo nela declaração falsa ou diversa da que deveria ser escrita. Isto posto, à guisa das particularidades que essa conduta admite, há duas possíveis configurações: a de Falsidade Ideológica, supracitada, e a de Falsidade Material.

Se o agente obtém o papel assinado em branco de forma ilegal, ilegitimamente (seja por furto, ou por apropriação indébita, por exemplo), está-se diante de uma falsidade material. On the other hand, se o agente tem a posse legítima da folha, estando incumbido de seu preenchimento, e o faz mediante abuso da confiança que lhe foi depositada para tal, inserindo nela declarações falsas ou diversas das que realmente deveria lançar, resta configurado o crime de falsidade ideológica ora analisado. 

Sempre que conhecemos alguém a quem atribuímos certa importância e confiança, damos a esta pessoa uma folha em branco assinada por nós mesmos. A pessoa que recebe esse papel, recebe simultaneamente a incumbência de não apenas zelar por ele, mas de preenchê-lo, tendo, portanto, legitimidade para isso. 

De posse legítima de nossa folha, esse agente passa a lançar nela toda a sorte de declaração que lhe foi confiada: preenche com os momentos compartilhados, com as impressões, com os sentimentos, com as palavras ditas, com as atitudes, com as omissões, com as intimidades, com os lugares visitados, com as festas... Preenche com a história dessa particular interação, com tudo que o agente nos oferece enquanto portador desse papel; o que pode durar dias, meses, ou anos. 

Confiar esse documento em branco tão importante a alguém é a primeira formalidade que deve ser cumprida para podermos viver aquilo que o preencherá. Entretanto, a falta de Segurança Jurídica é inerente a essa entrega, visto a imprevisibilidade da conduta que será praticada pela outra pessoa. É óbvio... A gente nunca sabe o que o outro pretende, o que o outro pensa, o que o outro sente. A gente nunca sabe se a vontade de preencher a folha em branco que recebemos do outro com uma gama de coisas boas é a mesma vontade sentida por quem recebe a nossa. 

E aí, acontece o crime de Falsidade Ideológica: não contra a Fé Pública, mas contra a nossa Fé Individual, a nossa confiança; esse bem jurídico que o Estado não tutela...

O sujeito ativo (agente do crime) preenche a folha com informações que não condizem com a realidade sentida. Ele não vive aquilo com você, ele só quer fazer constar, fazer parecer que algum sentimento existe da parte dele, fazer parecer que merece a sua confiança, dar a entender que leva aquela tarefa que lhe foi incumbida a sério. Mas não leva e, no momento oportuno, você descobre aquela conduta "típica" (no Direito Penal, aquela que se subsume a um tipo penal, a um crime) do Abuso de papel em branco assinado. 

Pela observância do Princípio da Intervenção Mínima, que limita o jus puniendi do Estado (ou seja, o seu direito de punir) e do Princípio da Insignificância, que estabelece limites para a tipificação penal (ou seja, para a capacidade de o Direito Penal tipificar condutas irrelevantes) é fácil entender porque o Estado não tutela esse bem jurídico tão particular, nem pune essa conduta tão reprovável do ponto de vista da vítima.

Talvez o grande problema esteja no fato de que, na falta da tutela estatal, criamos uma amostra grátis de Pluralismo Jurídico, um Direito próprio, conferindo a defesa desse bem jurídico (a Fé Individual, a confiança) a quem não tem interesse suficiente em defendê-lo: o outro

É aí que está o nosso erro: confiamos no outro e deixamos essa confiança nas mãos dele, para que ele realize a sua tutela, que zele por ela. Mas essa tarefa deveria nossa. É a nós mesmos que deveria caber o zelo pelos nossos sentimentos, porque só a gente tem interesse suficiente em protegê-los. Ninguém se preocupa com você tanto quanto você mesmo. E isso é uma pena, porque, como já ouvi a minha avó dizer: "o Egoísmo é a chaga da humanidade". 

Mesmo assim, entre o erro de quem confia o preenchimento do papel em branco assinado a quem não merece tal confiança e o erro de quem age de má fé e abusa da confiança que lhe foi depositada, ainda prefiro estar na primeira posição. Porque, por mais que o Direito se abstenha de punir a segunda conduta, a vida pune, nem que seja só com o arrependimento, com a consciência pesada pela traição da confiança alheia, pela oportunidade perdida. E essas punições, infelizmente, costumam ser muito mais severas. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Uma Tarde no Guichê 05

Ontem tive minha primeira experiência sozinha no Atendimento da Defensoria Pública da União em Pernambuco e senti uma imensa necessidade de escrever a respeito. Sem dúvidas, ontem conheci o lado mais importante daquele órgão público: o lado de quem busca a Assistência, de quem necessita dela, de quem se sente injustiçado, de quem não tem outra alternativa... Ontem tive a experiência mais humana da minha vida. 

O simples fato de estar no Atendimento já me parecia desafiador desde o princípio. O que eu direi? O que eu farei? E se me perguntarem algo que eu não tenha conhecimento jurídico suficiente para responder? E se eu der alguma informação errada? E se eu esquecer de algum procedimento? Não seria mais uma petição, ofício, ou recurso, que eu poderia passar horas analisando modelos, melhorando a redação, pesquisando jurisprudência, etc. para elaborar. Era ao vivo, em tempo real, em carne e osso. Mas, desafio dado, desafio aceito; por livre e espontânea pressão, já que o Atendimento é obrigatório na experiência de estágio da DPU. 

E, assim, o "Assistido", que, até então, se restringia a um termo usado para identificar a parte autora no Processo de Assistência Judiciária, personificou-se do outro lado do guichê 05. Incrível! São pessoas de verdade. Com suas vidas, emoções, necessidades, inquietudes; são pessoas que aguardam aflitas a minuta das peças de seu processo, as audiências, as decisões... Mas, principalmente, são pessoas que não estão ali "pra ver se cola", mas porque TEM que colar, porque dependem do ganho daquela causa, da concessão daquele benefício, para a manutenção de sua vida. 

Foi assim que recebi uma senhora de bengala que se recuperava de uma cirurgia na coluna e retornava para saber a quantas andava seu processo para receber uma Pensão por Morte em razão do falecimento de seu ex-marido. A situação era complicada e a Defensoria se habilitou ao processo já em fase recursal, tendo a antiga advogada se adiantado e entrado com o recurso à nossa frente, deixando o Defensor de mãos atadas. Recurso negado, PAJ arquivado pela DPU. E a quem caberia dar a notícia? Analu. Que barra, em meu primeiro dia... Mas eu o fiz. E a senhora desabou em lágrimas, em pedidos de ajuda, em desespero. Eu realmente não sabia o que ainda poderia ser feito, nem a Supervisão sabia ao certo... Fiz o que estava ao meu alcance, relatando tudo e passando todas as informações prestadas pela "Assistida" ao defensor do caso pela ferramenta de Retorno. Mas, acabei sofrendo com ela, por esse sentimento de impotência, por não poder dar uma solução ao seu problema...

Durante toda a tarde, eu ouvi reclamações de quem teve o pedido de conversar diretamente com o Defensor negado pela Supervisão, de quem se sentiu enrolado em atendimentos anteriores, de quem queria mais celeridade, de quem estava inconformado... Mas ouvi também palavras carinhosas de agradecimento, incontáveis "Deus lhe pague", "Deus lhe abençoe", pedidos de desculpa pelo trabalho dado (e até uma promessa de "se eu ganhar na Loteria..." hahahaha). Acho que nada será mais gratificante e engrandecedor do que isso foi. E algo que só dependeu de uma dose maior de "boa vontade" da minha parte para acontecer. 

Acho que nunca aprendi tanto em cinco horas, e com pessoas que, aparentemente, não teriam o que ensinar a alguém a quem elas chamam de "Doutora". Elas podem não saber, mas ontem fizeram de uma simples e cansativa tarde de Atendimento uma experiência de aprendizado incrível. A palavra "Assistido" deixou de ser só uma palavra. Voltei para casa realmente mais humana, mais sensível e mais comprometida com o que eu escolhi como palavra de ordem para a minha vida: AJUDAR

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Anatomia da Alma e Psicologia dos Corpos

Eu não quero aqui entrar em méritos religiosos, mas, pra mim, corpo e alma são uma coisa só. A gente não diz "Aquele corpo dança muito bem", ou "Olha aquele corpo atravessando a rua". A gente se refere àquela "pessoa", porque a essência dela toma a forma do seu corpo, ao mesmo tempo que o corpo é a personificação dessa essência. Eu nunca poderia ser eu mesma sem o meu corpo, nem meu corpo continuaria sendo eu mesma se não fosse habitado por minha alma. Eu só SOU, porque tenho (consciência de que tenho) ambos: corpo e alma

Porém, nesses tempos loucos do século XXI, o corpo parece ter se transformado em um mero acessório: moldável, dissociável da alma. O corpo passou a ser um adorno projetável, que se busca modelar constantemente, como se, apesar de necessário, já não fosse mais suficiente para abrigar a nossa essência. Não existe mais aquela resignação, aquele "aceitar a anatomia que Deus deu", entendendo o corpo como um presente do destino, ou um castigo, sei lá. Ao contrário, há uma verdadeira cultura ao corpo: homens e mulheres buscando excelência na moldura, buscando uma forma nova, uma embalagem exclusiva para seu produto. 

Não é algo que eu esteja criticando ou elogiando, só questionando. É que, se eu acredito que o corpo e a alma não podem se dissociar, então, sou obrigada a acreditar também que essa modelagem toda acaba, de alguma maneira, atingindo a nossa essência. A dúvida é se essa busca por uma forma seria motivada pelo fato de a alma estar desconfortável naquele recipiente, precisando, ambiciosamente, adquirir outra embalagem porque seu conteúdo já não é mais o mesmo; ou se, por razões alheias, externas, busca-se mudar a forma para que o conteúdo também se modifique, numa tentativa de elevar a auto-estima, por exemplo. 

Acho a primeira situação absolutamente normal, apesar de reforçar o caráter acessório que o corpo tem tomado. Mas, essa segunda hipótese... Essa segunda hipótese eu não assimilo. 

As mudanças internas são muito mais complexas do que as externas. Você pode fazer um penteado diferente pra mostrar que tem atitude, mas essa atitude não vai passar a fazer parte de você por osmose entre seu eu-lírico e sua escova de cabelo. Você pode se dar de presente uns seios novos, mas a sua auto-estima não vai mudar simplesmente porque você aumentou 2 ou 4 números do sutiã. Seria "tão eficaz quanto mascar chiclete pra tentar resolver uma equação de álgebra": inútil.

Faz umas duas ou três semanas que comecei a malhar e sempre me pego observando as pessoas da academia. Aprendi que isso é um "estudo etnográfico", mas eu só uso esse termo pra diminuir meu sentimento de culpa por ficar analisando a vida alheia mesmo. De toda forma, é curioso ver as pessoas se admirando nas paredes espelhadas, ou olhando seus corpos enquanto fazem musculação. Algumas parecem estar contemplando a beleza daquilo que enxergam, outras parecem estar avaliando os resultados dos exercícios... Não sei.

Mas, qual o mal de elas quererem gostar do que estão vendo no espelho, né?! Acho que isso é sadio, se o conteúdo estiver bem "assentado" na embalagem. Caso contrário, incorre-se no erro de querer mudar, de fora para dentro e às pressas, o que exige uma mudança interna, trabalhosa e demorada. Evite!

Por outro lado, eu também penso o seguinte: pra que serve todo aquele ar que vem dentro do pacote de batatinha Ruffles? Para proteger as batatas. Então, numa analogia bem xexelenta, algumas pessoas poderiam buscar uma forma/embalagem diferente do conteúdo, simplesmente como uma tentativa de auto-proteção. Até porque, hoje, com todo esse culto ao corpo, parece ser um pecado mortal não atender às exigências de mercado; e atender às exigências do mercado funciona como um mecanismo de aceitação social que pode (mas não deveria) influenciar, sim, na auto-estima das pessoas, na essência.

Não sei que linha de raciocínio está correta, mas eu vou continuar o meu Projeto Verão 2015 mesmo pra, finalmente, ganhar as pernas de Sabrina Sato e sambar na cara da sociedade. Então, podem me julgar também! Hahahaha... Talvez as pernas da minha alma não caibam mais nessa circunferência das minhas coxas, como elas mesmas já não cabem mais em algumas de minhas roupas antigas. #VlwFlws

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Um sanduíche pra tantos problemas

Estive lembrando hoje de uma inquietação antiga. Não faz muito tempo, eu morava em Nazaré da Mata e vinha todos os dias para Recife assistir aula. A viagem era longa por causa do trânsito (de casa até a faculdade, gastava 2 horas e 30 minutos), mas a paisagem, tão bela, trazia uma quietude ímpar que aliviava o pesar e o cansaço. Pouca gente sabe a sensação de viajar na madrugada. Sair de casa no escuro (4h50 ainda parece noite) e ver o Sol nascendo, refletindo na paisagem, esbranquiçada por aquele vapor suspenso que restou da noite fria... Para quem faz essa viagem de ônibus interurbano, indico meu trecho predileto: na altura em que o motorista sai do trajeto e se dirige a Tiúma para seguir a Camaragibe. Valia a pena abrir os olhos nesse trecho, mesmo quando eu tinha virado a noite estudando para as provas, só para dar uma espiadinha, porque esse cenário fazia com o meu humor o que nenhuma torta de morango consegue fazer. Hehehe... E, para me ajudar a aguentar essas viagens, minha mãe, todos os dias, às 4h30, acordava e preparava meu café da manhã e uns sanduíches para eu comer na volta. Eram dois e, ela não sabe, mas eu só comia um. 

Nesse período, eu só conhecia um único trajeto para a Faculdade de Direito do Recife: atravessando pela Avenida Conde da Boa Vista. Uma caminhada de 2 minutinhos que definia o meu humor do dia. Era esse trechinho curto, naquelas ruas sujas e mal cheirosas, que determinava como eu me sentiria pelo resto da manhã. 

Acontece que, para quem tem a infelicidade de andar por essas ruas, algumas cenas são impossíveis de não serem percebidas. Alguns moradores de rua, em sua maioria crianças, se dispõem pelas calçadas, em colchões velhos ou papelões, onde passam a noite. Aquela noite, sabe, que eu tinha dormido quentinha na minha cama fofa em Nazaré da Mata, debaixo do teto seguro do meu quarto, com meus dois travesseiros? É, aquela noite, eles tinham virado sob a lua, olhando para as estrelas (isso até soa romântico, mas não é), com frio, no desconforto do chão, sem qualquer proteção, à mercê da própria sorte, apelando para que não chovesse... E continuavam ali pela manhã, como parte do cenário urbano, mas invisíveis para o Estado, até sendo tidos como um incômodo, um defeito na paisagem que precisa ser removido, mas não necessariamente consertado. 

Se eu tinha saído de casa com algum problema na cabeça, essa cena me fazia parar para refletir sobre a relevância das minhas preocupações. Então, eu agradecia a Deus por ter problemas tão ínfimos e, sendo suficientemente egoísta, sentia de volta minha tranquilidade, enquanto repousava um dos meus sanduíches no colchão de alguma das crianças: a sortuda que teria café da manhã naquele dia. 

Como se encontrar alguém num estado pior que o meu fosse motivo para alegria. 

Mas, se eu tinha saído de casa feliz e carregado comigo aquela paz transmitida pela paisagem da viagem, ao me deparar com esse cenário hostil, sentia um peso na consciência que roubava meu bom-humor, por me mostrar o quão injusto e vergonhoso era eu ter tanto e outra pessoa, tão digna dessa plenitude quanto eu, não ter nada. Então, eu dividia o que eu tinha, abrindo mão de um dos meus sanduíches. 

Como se 1 sanduíche fosse capaz de acabar com a fome do mundo.

Em uma dessas passagens, a que mais me chocou, uma criança estava acordando enquanto eu atravessava a rua. Ainda com os olhos fechados, ela foi se espreguiçando, tateando o papelão em que estava deitada e, como um cão, farejando e lambendo-o, até encontrar o que queria, seu café da manhã: cola. Nunca encontrei palavras que descrevessem o que essa cena representou para mim. Em Nazaré, essa realidade nunca me tinha sido tão próxima, tão palpável... 

Cheguei a comentar sobre essa inquietação com alguém e essa pessoa sugeriu que eu mudasse meu trajeto: "passa por outra rua". Não sei se foi o caso de quem me deu esse conselho, porque não consigo lembrar quem me disse isso, mas lidar com pessoas completamente alheias a essa realidade, limitadas ao conforto do ar-condicionado de seus carros, acabou me deixando profundamente aborrecida. Eu não queria ter que ignorar os fatos, eu queria alterá-los. Esse é o retrato da pobreza, um ato de violência praticado pelo Estado que, de tão comum, parece ser normal. Então, torna-se mais fácil desviar da "pedra no meio do caminho" já que se considera natural que ela exista ali.

É terrível me sentir de mãos atadas. Eu sei que poderia levar uma padaria inteira para alimentar a Conde da Boa Vista, mas isso não acabaria com a fome. É impossível botar todo mundo no colo e levar para casa também; isso nunca resolveria o problema da falta de moradia. Não quero mais falar de caridade, quero falar de mudança. Talvez seja uma pretensão muito ambiciosa ou muito ingênua da minha parte querer modificar essa realidade. Mas, como se coloca esse plano em prática, afinal?